Mostrando postagens com marcador PSICANÁLISE. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador PSICANÁLISE. Mostrar todas as postagens

domingo, 30 de março de 2014

REVOLUÇÃO

“O psiquismo é reacionário, a vida é que é revolucionária”, frase de Denise Maurano, psicanalista, alude à compulsão a repetir. Repetir nosso modo de relação com os outros, com a vida, repetir nossas queixas, nosso discurso, nossa posição. Somos tão reincidentes que muitas vezes cansamos nossos pares, ou a nós mesmos, quando temos um pouco de consciência da nossa mesmice... Sofremos com isto que ignora nosso querer e insiste em nosso cotidiano, em nosso jeito de amar, de falar, de nos metermos nas mesmas encrencas, de nos vermos com as mesmas inibições. A Psicanálise vai justamente se ocupar disto que em nós teima em repetir-se. Em busca do novo, de um arranjo diferente, que inaugure novos sentimentos, novas posições. A vida é revolucionária porque nos apresenta sem cessar a oportunidade de arriscar, de inovar, de inventar. Verdadeiramente, viver.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O SUJEITO E SUA CONTRADIÇÃO

O discurso da Modernidade é o discurso das liberdades fundamentais do ser humano,
e a Modernidade é a própria inauguração da idéia liberal, da escolha, da individualidade.
A liberdade de ser quem eu quero ser, fazer minha própria escolha, viver a vida do meu jeito, construir minha própria identidade... Em nosso mundo chamado pós-moderno, vivemos o auge da reivindicação das liberdades. Somos todos livres, aptos a fazer nossas escolhas...
Lacan, psicanalista francês que, na década de 50 reformulou a psicanálise fundada por Freud, refere-se a este discurso de liberdade como um delírio. Portanto, além de livres, segundo Lacan somos também delirantes... E esta idéia lacaniana se fundamenta na noção mais importante da psicanálise, aquela que lhe deu origem e que escandalizou a sociedade vitoriana da época de Freud: a noção do inconsciente. O gênio de Freud desbancou toda essa autonomia, ao revelar-nos divididos entre, por um lado, este que facilmente reconhecemos e assumimos como nós mesmos: o nosso eu, e, por outro lado, esse obscuro e estranho que mora em nós, o inconsciente. Dele nada sabemos.
Esta é a contradição do sujeito humano. Este que se pretende dono de si, livre para fazer suas escolhas, e este que tantas vezes não tem escolha, que se vê tantas vezes refém de si mesmo.

domingo, 11 de julho de 2010

REPETIR E MUDAR

Uma cena da minha infância que sempre me vem à memória é a da reunião da grande família em redor da mesa de refeições. Ocasião em que, em torno do alimento, acontecia habitualmente a revelação das diferenças dos membros do grupo em seus gostos, desgostos, preferências, recusas e até mesmo repulsas. Alguém, por exemplo, apesar de nunca ter comido tomate, alegava dele não gostar, outro cuspia a batata que tentavam obrigar-lhe a comer, e havia também o que requeria toda a atenção materna por ser aquele que "não comia nada". E se todos comiam manteiga, alguém certamente só aceitava margarina. De minha parte, lembro de certa intolerância ao leite, que, em nome da boa educação alimentar, minha mãe exigia que se tomasse. Lembro deminha especial preferência pelo café preto. Símbolo, talvez, do que eu pudesse considerar próprio de gente grande, o café com pão era minha refeição preferida. Costumava saborear com prazer a repetição da bebida bem quente e açucarada, com mais fatias de paão com manteiga. Pois um dia, ao ver-me pedindo mais, alguém disse algo que manchou para sempre a pureza daquele momento de satisfação: " O segundo café nunca é igual ao primeiro." Inesquecível este meu encontro com a verdade da incompletude do prazer, com a inevitabilidade da falta, da perda e da impossibilidade. Enfim,o que foi nunca mais será.
Eis aí uma questão essencial da vida humana, o encontro marcado com isto que já não é mais, aquele que já fomos, com o que se passou e, no entanto, tantas vezes buscamos alcançar.
O ser humano é irremediavelmente impelido a repetir. Repete porque busca alcançar este algo de conhecido e de desconhecido que resta sucumbido em seu íntimo. Freud, na genialidade de sua produção, nos fala do conhecido e do estranho como faces duplas daquilo que somos. Conhecido porque é aquilo que somos novamente, mais uma vez e repetidadmente. Desconhecido e estranho porque, neste ato de repetição, necessariamente nos topamos com algo diferente,novo.
Tentamos repetir o mesmo desenho e linhas inusitadas teimam em surgir.E o desenho fica outro. Na tentativa de copiarmos a receita geralmente acabamos descobrindo que algum detalhe diferente nos faz experimentar um novo sabor. E assim também em nossas escolhas amorosas, profissionais, escolhas de vida, há algo ali que insiste em repetir-se. E sempre algo que, felizmente, teima em nos surpreender.
Seguem abaixo duas telas da artista plástica Adriana Rocha, a nos mostrar, como a arte sempre o faz, que o céu nem sempre é azul, que há , enfim, infinitos jeitos de representar alguma coisa, de dizê-la, de olhá-la, de vivê-la.

domingo, 28 de março de 2010

A VERDADE DO SUJEITO

Acompanham a humanidade, ao longo de sua história, a força da tradição, do costume e, por outro lado, a revolução, a busca da aventura e da mudança. É humano habituar-se,acomodar-se, acostumar-se. E felizmente não menos humano,e talvez mais ainda, criar, inquietar-se, ansiar pelo novo.Assim caminha o desenvolvimento humano. Num movimento repleto de desacomodações, que geram mudança de comportamento e novas compreensões.
Em nossas vidas cotidianas,vivemos igualmente essa contradição, entre o conhecido, o habitual eo confortável, e, por outro lado, o novo, o arriscado, o diferente.Pode-se dizer que aí esteja a essência do desafio de nosso viver. Tendemos a repetir padrões de comportamento, padrões emocionais, estes que tanto conhecemos, que nos caracterizam até e que às vezes nos incomodam por sua insistência. São comportamentos sintomáticos.Há sempre algo que desconhecemos profundamente aí. Paradoxalmente, os sintomas nos conferem alguma segurança, ao mesmo tempo em que nos causam sofrimento, angústia, aborrecimento. Trata-se de algo que insiste, para além de nossa vontade. Somos o que não gostaríamos de ser, sentimos o que nos pesa, nos oprime, ignoramos o que desejaríamos saber. Uma cadeia que nos aprisiona e frustra. Queremos mudar.
A psicoterapia - refiro-me aqui específicamente à psicanálise, ou à orientação psicanalítica - é uma caminhada onde nos vemos com esses processos. É a busca, através da palavra dita e ouvida, de novos sentidos, novas possibilidades de ser. Para tanto
torna-se necessário aceitarmos que estamos implicados em nossos sintomas, que eles não são meros eventos isolados. Trata-se de irmos ao encontro do que desconhecemos de nós mesmos. Rever nossa própria história, reconhecer nosso próprio desejo, desembaraçar-mo-nos de nossos fardos. Encontrar sua verdade, eis aí o objetivo do sujeito em análise.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010