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terça-feira, 18 de outubro de 2011

OS TEMAS INSISTENTES

Algo sempre insiste em nosso discurso, em nossos gestos, nossos atos, em nossa história. "A história se repete", ouvimos tantas vezes. Sim,repete-se, à reveleia de nossas vontades, tantas vezes, e também se recria, se renova, se faz diferente. Assim somos nós, feitos de insistências e repetições e da mais pura invenção. Seres notoriamente contraditórios, esses que somos. Esses que se afirmam "os mesmos" embora sejam tantos outros pela vida afora. Tão desejosos de mudança, de traços que nos façam diferença, e tão apegados às conhecidas e familiares facetas de nós mesmos...
Visitei esta semana o museu Iberê Camargo, onde estão expostas obras de Iberê e do uruguaio Torres Garcia. O conjunto da obra de um artista não foge a esta dualidade , onde o novo e o repetido se combinam a constituir identidades. Na obra de Iberê me toca o tema do ciclista, este personagem sombrio, solitário, ora a percorrer caminhos a bordo de sua bicicleta, ora estático, numa pose frontal na tela, a olhar, a bicicleta ao longe, ou ainda estirado ao solo, será que extenuado pelo cansaço, será que desesperançado... São fortes as telas onde Iberê repete o tema do homem e de sua bicicleta. Um homem que pode estar em movimento ou aparentemente estático. Na solidão inerente ao humano, esta em que o homem conversa consigo mesmo...

domingo, 11 de julho de 2010

REPETIR E MUDAR

Uma cena da minha infância que sempre me vem à memória é a da reunião da grande família em redor da mesa de refeições. Ocasião em que, em torno do alimento, acontecia habitualmente a revelação das diferenças dos membros do grupo em seus gostos, desgostos, preferências, recusas e até mesmo repulsas. Alguém, por exemplo, apesar de nunca ter comido tomate, alegava dele não gostar, outro cuspia a batata que tentavam obrigar-lhe a comer, e havia também o que requeria toda a atenção materna por ser aquele que "não comia nada". E se todos comiam manteiga, alguém certamente só aceitava margarina. De minha parte, lembro de certa intolerância ao leite, que, em nome da boa educação alimentar, minha mãe exigia que se tomasse. Lembro deminha especial preferência pelo café preto. Símbolo, talvez, do que eu pudesse considerar próprio de gente grande, o café com pão era minha refeição preferida. Costumava saborear com prazer a repetição da bebida bem quente e açucarada, com mais fatias de paão com manteiga. Pois um dia, ao ver-me pedindo mais, alguém disse algo que manchou para sempre a pureza daquele momento de satisfação: " O segundo café nunca é igual ao primeiro." Inesquecível este meu encontro com a verdade da incompletude do prazer, com a inevitabilidade da falta, da perda e da impossibilidade. Enfim,o que foi nunca mais será.
Eis aí uma questão essencial da vida humana, o encontro marcado com isto que já não é mais, aquele que já fomos, com o que se passou e, no entanto, tantas vezes buscamos alcançar.
O ser humano é irremediavelmente impelido a repetir. Repete porque busca alcançar este algo de conhecido e de desconhecido que resta sucumbido em seu íntimo. Freud, na genialidade de sua produção, nos fala do conhecido e do estranho como faces duplas daquilo que somos. Conhecido porque é aquilo que somos novamente, mais uma vez e repetidadmente. Desconhecido e estranho porque, neste ato de repetição, necessariamente nos topamos com algo diferente,novo.
Tentamos repetir o mesmo desenho e linhas inusitadas teimam em surgir.E o desenho fica outro. Na tentativa de copiarmos a receita geralmente acabamos descobrindo que algum detalhe diferente nos faz experimentar um novo sabor. E assim também em nossas escolhas amorosas, profissionais, escolhas de vida, há algo ali que insiste em repetir-se. E sempre algo que, felizmente, teima em nos surpreender.
Seguem abaixo duas telas da artista plástica Adriana Rocha, a nos mostrar, como a arte sempre o faz, que o céu nem sempre é azul, que há , enfim, infinitos jeitos de representar alguma coisa, de dizê-la, de olhá-la, de vivê-la.