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domingo, 30 de março de 2014

REVOLUÇÃO

“O psiquismo é reacionário, a vida é que é revolucionária”, frase de Denise Maurano, psicanalista, alude à compulsão a repetir. Repetir nosso modo de relação com os outros, com a vida, repetir nossas queixas, nosso discurso, nossa posição. Somos tão reincidentes que muitas vezes cansamos nossos pares, ou a nós mesmos, quando temos um pouco de consciência da nossa mesmice... Sofremos com isto que ignora nosso querer e insiste em nosso cotidiano, em nosso jeito de amar, de falar, de nos metermos nas mesmas encrencas, de nos vermos com as mesmas inibições. A Psicanálise vai justamente se ocupar disto que em nós teima em repetir-se. Em busca do novo, de um arranjo diferente, que inaugure novos sentimentos, novas posições. A vida é revolucionária porque nos apresenta sem cessar a oportunidade de arriscar, de inovar, de inventar. Verdadeiramente, viver.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

UM NOVO SENTIDO

Fazia minhas compras semanais no supermercado. O mesmo de sempre, perto de minha residência. Estava tomada por essa pressa de concluir mais uma de minhas tarefas habituais, essas que preenchem nosso tempo repetitivamente. Colocar no carrinho cada mesmo produto, percorrer os corredores na ordem já estabelecida pela rotina. Impressionante como coisas a serem feitas se impõem como prioritárias a nos distrair do sentido da vida... A repetição se instala no lugar da criação, da novidade. No corredor dos refrigerantes reparei que não havia fardos de garrafinhas pequenas, das que costumo comprar. Ocupado em organizar as prateleiras, vejo um rapaz que veste o uniforme do supermercado. Logo me dirijo a ele, perguntando sobre o produto em falta. Ele me olha e vejo uma certa incomodação em seu olhar. Me faz um sinal através do qual compreendo perfeitamente que ele é surdo-mudo. Ele me faz este sinal logo voltando às suas atividades, num claro indício de sua exclusão. Era perceptível para mim o desagrado do rapaz, acostumado a cumprir sua sina de ausência. Ele logo se afastou, de um modo brusco, que me perturbou. Fui até ele, então, dei uma cutucada em seu ombro, e usando gestos simples, comuniquei a ele o que eu precisava. A expressão de surpresa, espanto que vi em seu olhar foi interessante. Aqueles momentos preciosos em que a repetição abre espaço para o inesperado. O rapaz me respondeu imediatamente com um sinal para que eu esperasse, e correu a buscar o fardo de refrigerantes no depósito. Quando voltou, fiz-lhe um gesto de agradecimento e seu jeito mau-humorado havia se transformado numa expressão simpática. Naquele breve contato, algo de novo aconteceu, desacomodando as rotinas, as coisas de sempre, o mesmo olhar sobre a vida que se transforma em uma nova visão.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

SURPRESAS COM O TEMPO

A relação humana com o tempo é carregada de angústia, de frustração, de ansiedade, de exigências... O tempo, esse invisível companheiro, nos braços de quem nos deitamos tão sossegadamente às vezes, no descanso, no sono confiante de quem se permite entregar, com serenidade, ou mesmo com indolência, com preguiça ou despreocupação, mas por outras tantas vezes nos encontramos como que a persegui-lo, num injusto e desigual enfrentamento. A nossa reincidente questão com a falta ele nos expõe, como uma ferida... Nos vemos a acusá-lo de nos faltar, sempre nos faltar. Quando a verdade que escondemos de nós mesmos é a inquietante essência da qual somos feitos. Nós é que nos fazemos de falta. Impossível a nossa completude, a nossa perfeição. Muitas vezes elegemos a pontualidade de um momento da vida para exigirmos dele uma escolha, uma realização, um passo a dar, uma conclusão a tirar, um percurso a concluir. Tomados de ansiedade e de ilusórias certezas, achamos que aquele é o instante destinado a este salto. O calendário, a agenda, o relógio, o tempo tem que ser alcançado... Pois é ele, o tempo, que, em sua maravilhosa capacidade de surpreender-nos, nos avisa, talvez quando achemos fora de época, ou talvez quando nos apanhe meio despreparados(ou preparados), que não marquemos hora, que não sejamos tão senhores da situação, que não nos preocupemos em estar no controle, e, quando formos assim surpreendidos, estaremos diante de um instante criativo, capaz de nos recompensar e de nos renovar as forças e alegrias. Porque é tudo, na vida, a seu tempo...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

No vídeo abaixo, a música para os ouvidos, a música para a alma. Eduardo Galeano sempre nos provoca com suas palavras a pensar no mundo em que vivemos e a querer viver o mundo que pensamos. Digo música, porque ele escreve de uma forma poética, a beleza de seu texto, como a melhor das poesias, mira um mundo melhor, tem um compromisso permanente com a mudança. É sempre tocante, comovente, inquietante para mim. Neste vídeo ele fala sobre a utopia, que serve, segundo nos diz, para caminhar. Para todos nós, que estamos, neste final de fevereiro com a sensação de mais uma caminhada que começa, para que nos valha como inspiração,para que nossas escolhas visem, corajosamente, transformar o mundo.

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

SEM DATA MARCADA

O prazo final para realizar a inscrição para o vestibular da UFRGS se aproxima. O prazo coloca um limite datado para um processo interno que, sabemos, não tem como ser tratado com essa precisão. Um processo que é o de reconhecimento de si, de uma verdadeira reedição de si, que se dá na adolescência, e que coincide com assumir-se em vários sentidos, inclusive fazendo uma opção profissional. Claro que a vida inclui os prazos, as burocracias, as provas. A aptidão para todos esses desafios que a vida nos propõe, no entanto, é desenvolvida num caminho que é sempre singular, e não tem hora nem data marcada. Este caminho pelo qual nos vamos construindo. É preciso respeitar este ritmo característico de cada um, que foi imprimido pela história de cada sujeito, por este contexto que é sempre individual, tem seus próprios indícios, seus próprios entraves, suas consequências próprias. Este é o meu recado para aqueles que estão, às vésperas das inscrições, angustiados por ter de cumprir prazos. A essência de tudo isto, a construção de si mesmo, de uma identidade, de um projeto de vida, é algo muito maior. Inscrever-se para o vestibular, escolher uma profissão, é bom que se faça realmente assumindo nossa diferença.

domingo, 12 de agosto de 2012

AQUI É O MEU LUGAR

Fui ao cinema para ver Woody Allen, mas por um engano de horário o filme que passava era ' Aqui é o meu Lugar', do diretor italiano Paolo Sorrentino. Tomei o acontecido como um indício de que ali poderia ser o meu lugar... Logo nas primeiras cenas cheguei a duvidar, tal o estranhamento que me causou a imagem de Sean Penn, diferente de todas as suas atuações. Uma máscara. Maquiagem carregadíssima, lábios pintados, cabelão armado, roupas e botas pretas. O personagem, um roqueiro aposentado que, apesar disso, carregava sua figura intocada pela passagem do tempo. Algo de uma indefinição o marcava. A voz, de um timbre não qualificável, não era masculina. Nem mesmo feminina. O andar, lento e balançado, fazia o personagem parecer movido em câmera lenta. O roqueiro brilhantemente interpretado por Sean Penn apresenta-se logo de início como um depressivo, em sua fala lenta e monótona, sua carência de esperança, de atitudes, de desejo. Seu quase apagamento, salvo pela relação com a mulher, que trata de sublinhar, a todo tempo, as possibilidades de vida e de relação com o desejo. Linda trajetória da personagem, que, ao se defrontar com a morte do pai, com quem não se relacionava desde a juventude,toma para si mesmo o desejo do pai, assumindo assim sua identificação com ele e, através de uma verdadeira viajem, fazer a transição para o mundo adulto. Numa cena linda do filme, ele diz que um dia se tem que escolher um momento da vida para não se ter medo. É disto que o filme nos fala. Da coragem de criar um itinerário próprio, de assumir um destino próprio,de assumir-se além da máscara.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ESCOLHA, DÚVIDA E CERTEZA

A possibilidade da escolha é justamente um marco no amadurecimento de todos nós. Desde crianças, a promessa de ter acesso à liberdade de escolher nos era feita. Já que nenhum de nós escolheu nascer, escolheu o próprio nome, em que condições viria ao mundo, as próprias bases ideológicas que embasariam nossa educação, é claro que não escolhemos. Estivemos, podemos dizer, submetidos, determinados por uma conjuntura que nos antecedeu e que nos deu origem. Ansiamos por fazer nossas próprias opções. E, na infância, imaginamos que a possibilidade de escolher é uma chave que nos conduz a um mundo de liberdade e sucesso. Quando, então, nos deparamos com as primeiras, experimentamos também a incerteza, a angústia, o receio de perder, ou mesmo o sentimento de perda que as acompanha, inevitavelmente. Pois a opção que não fizemos, esta fica perdida. É então que nos vemos aprendendo que a escolha diz de nossa condição de sujeitos. Estes, que ganham e perdem. Estes que anseiam pelas certezas e são tão cheios de dúvidas. É com isto que temos que nos ver. Fantasiamos, muitas vezes, que a escolha nos conduzirá à certeza. Como negar que este seria o ideal? Que pudéssemos nos cercar de certezas. Já Descartes preocupava-se com esta questão. E para resolvê-la, obrigou-se a lançar mão de Deus. Pois do que podemos nós, humanos, estar certos de verdade? A certeza, a verdade absoluta, pertencem a um terreno ideal. Nós, seres humanos, desde Freud, descobrimos que somos divididos entre consciência e inconsciência. Este saber absoluto, completo, que tem a ver com a certeza, não podemos alcançá-lo. É com isto que temos que nos ver, quando escolhemos. Com esta liberdade que é a que podemos ter. Escolher assumindo os riscos, as perdas, bem como os ganhos e alegrias que venham com nossas escolhas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

VAZIO DE SENTIDO

Alguém me procura, dia desses, pedindo-me que indique a seu filho, que se prepara para concursos, um livro sobre competição. Fiquei um tanto surpresa com a solicitação, prometi pensar no assunto e dar-lhe uma resposta. Estudar para concurso. Que concurso? Muita gente hoje estuda para concurso, e é simplesmente isso. Algo assim um tanto vago, que é bem diferente de estar se preparando para um determinado processo seletivo, o que significa ter em mente um certo objetivo, uma meta com a qual a pessoa se identifique, algo que prometa ao menos fazer algum sentido. Vejo que muitas dessas pessoas encontram-se como numa espécie de limbo, um vazio de significação que as impele a agarrarem-se nesta meta, a preparação para concursos. Assim, algo que é dito de forma bem genérica, sem delimitação alguma: estudar para concurso. Certamente há um vazio a preencher. Vazio de sentido, talvez. Antes da Modernidade o sentido do viver estava pré-determinado, o destino dos homens era dado por herança. Com a invenção do indivíduo e da liberdade, os pós-modernos são seres criadores do próprio destino, o estilo e as metas pessoais são constantemente escolhidos, e a identidade, longe de corresponder a uma noção estável, torna-se reciclável. É de se compreender a angústia que possa trazer esta responsabilidade de se recriar o tempo todo, de lidar com perspectivas cada vez menos previsíveis. O rapaz em questão intuiu que era preciso aperfeiçoar-se na arte de competir. Para ser aprovado, selecionado. Parece que sua preparação embasa-se no objetivo de alcançar ou ultrapassar o outro. Este outro que, hoje, parece ser ameaçador. Fiquei pensando em tudo isso. Talvez por nunca ter nutrido simpatia ou mesmo interesse pela competição, o que certamente não me deixou impune a certas experiências menos felizes, eu diria – fato que a pessoa que me fez a solicitação, que parecia tão animada por referir-se à competição, afinal tão intrínsica, é verdade, ao mundo em que vivemos, capitalista e globalizado, certamente ignorava por completo. O que engatilhou todas essas reflexões foi a frase: Ele estuda pra concurso. Trouxe-me uma sensação de que este rapaz estuda assim sem norte, sem direção, e que talvez seja assim mesmo que ele se sinta. Foi buscar nos livros sobre competição a segurança que só poderia obter olhando mais para si mesmo...

segunda-feira, 12 de março de 2012

ATITUDE

Um dos objetivos de uma psicanálise ou mesmo de uma psicoterapia é que o sujeito consiga fazer seus próprios arranjos, libertando-se de suas determinações, dos destinos que sua história lhe traçou; ao invés de cumprir o que lhe havia sido escrito, ele então escreve com letra de seu punho. Cria, inventa, não sem reconhecer suas possibilidades e seus limites. Importante dizer que essa apropriação do seu próprio desejo inclui uma responsabilidade, uma missão ética.
Na vida, essa mudança de curso é essencial. Essencial é dar esse arranjo próprio ao nosso destino. Aí é que nos engajamos no viver. O encontro com nosso desejo requer algo mais para que nos humanizemos. Requer a ética da responsabilização.
O vídeo abaixo nos apresenta uma comovente cena exemplar do compromisso com a responsabilidade. Assumir o seu querer não é tudo. É preciso o engajamento na atitude.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O COMEÇO E O FIM

Dizem que o ano realmente começa quando termina o carnaval. E aí já nos deparamos com a dialética questão dos começos e dos finais. E da própria vida. Ao término de uma etapa, iniciamos outra fase, a ponto de não conseguirmos precisar, muitas vezes, onde é o começo, onde é o final. Início e fim se misturam como que a se combinar determinando sensações e emoções que também se mesclam e tornam esses momentos às vezes difíceis de definir, explicar ou entender. Seus limites são tênues. Se o começo nos enche de ansiedade e pode suscitar temores frente às surpresas do desconhecido, o final se apresenta quase como um veredito, é um real diante do qual só temos que nos render. Se o começo logicamente deve anteceder o final, não há começo que não comece após um final. A dialética do tempo, da vida... Inícios levam a términos, e términos fazem brotar inevitavelmente algo de novo, e assim, recomeçamos.
É assim que neste momento não sabemos bem se estamos terminando (as férias, o ano passado, um de nós que já não seremos...) ou se iniciando (um novo ano, um novo projeto, um de nós que nem bem conhecemos). Que estejamos, então, dispostos a encarar a verdade do final, e a emoção surpreendente do começo. É assim que a vida flui...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O CÉU É O LIMITE

No vídeo abaixo, da UNICEF, um adolescente moçambicano sonha em ser piloto. O pai o queria mineirador, mas ele lança seu olhar para o céu, e, tal como uma criança, corre pelo campo imitando o vôo de um avião. Para ele, ser piloto se traduz nesta imagem que é de uma pureza infantil, na qual ele é o próprio avião-pássaro de asas abertas, neste movimento que ele, é provável, associe com a liberdade de inventar seu próprio vôo, construindo um projeto diferenciado do destino que o pai havia lhe traçado. A imagem é inspiradora e mesmo comovente, porque nos convida a pensar em nossos próprios sonhos, esses para os quais o céu é o limite...

domingo, 29 de janeiro de 2012

ESCOLHAS FELIZES

Entrei na locadora disposta a escolher alguns filmes. Sem a listinha. Sim, importante esta listinha, fruto da minha pesquisa prévia, com os filmes premiados ou destacados nas críticas especializadas. Passo os olhos pelo grande acervo classificado em gêneros.
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UM NATAL E ANO NOVO INVENTIVOS

Os finais de ano nos impelem à repetição. Ou à invenção. Ao revivermos as tradições de Natal e Ano Novo, encontramo-nos fazendo mais uma vez tantas coisas que sempre fazemos nesta época, que temos que fazer, que alguém espera que façamos... A compra dos presentes, dos panetones, da decoração natalina, dos cartões que trazem palavras tão conhecidas, os votos renovados e replicados de felicidade.
E a felicidade? Nós, humanos, vivemos uma eterna contradição no que diz respeito à felicidade. Pelo simples fato de que nos falta sempre algo, algo que não conseguimos, algo que não dissemos, algo que não podemos, algo sempre nos faltará... Por isso somos seres desejantes. E que, fatalmente, temos que nos ver com essa falta...
Pois a felicidade talvez tenha mais relação com nos havermos com nossa incompletude do que com uma busca de supri-la... Ser feliz parece que tem a ver com esta mágica que rompe com a repetição, com a invenção de um jeito sempre incompleto de fazer algo interessante com essa nossa condição. Onde a falta, a imperfeição, sempre farão sua marca...
Ao desejar aos meus caros leitores um Feliz Natal e felicidade em 2012, estou a fazer-lhes votos de muita capacidade de fazer mágicas, de inventar, ao invés de repetir. E, necessariamente, de se responsabilizarem, arcarem com suas invenções...

sábado, 3 de dezembro de 2011

VIDA PRÓPRIA

Há um momento em que as mãos se desprendem dos braços de quem as ampara, e passos cambaleantes e inaugurais então acontecem.
Um dia, diante do espelho, a percepção da própria unidade, da diferença. Um corpo, outro corpo...
A descoberta da palavra não, o prazer de contrariar uma expectativa, de simplesmente desobedecer... Existe o sim, existe o não. Existe o um e o outro...
Também a ida para a praia, com a família, no verão. Um dia, não foi. Preferiu ficar. Mas é que sempre haviam feito esse passeio juntos... Pois hoje ficou, junto consigo mesmo...
As roupas preferidas da mãe foram desprezadas, a opinião do pai, contestada. A foto do porta-retrato, trocada.
Há sempre o dia em que se quer encontrar o próprio tom, a própria trilha, a própria zona de conforto... Nesse dia, o familiar se torna estranho, o estranho parece, então, familiar.
Não é indolor, todavia, esse processo. Há uma saudade que fica de fundo, remetendo ao que se foi, à cena antiga... E então segue-se em frente, e vão-se fazendo as descobertas, as aventuras, os bons momentos e as grandes emoções. A vida própria vai tomando seu jeito.
Em cada um desses pedaços de vida é decisivo o ato da escolha, que faz germinar o sujeito em cada gesto, em cada marca de singularidade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

OS SEGREDOS DO OLHAR

No filme argentino “O Segredo dos seus Olhos”, existe uma impressionante combinação de beleza e violência, passado e presente, uma boa história e uma belíssimo trabalho dos atores. O protagonista, um promotor aposentado, decide escrever um livro sobre um crime brutal ocorrido em seu passado profissional. O personagem revê, durante a trama, a sua compreensão do caso, a sua relação com a ex-chefe, pela qual foi sempre apaixonado, e sua própria atitude perante a vida e perante o amor. A intensidade do olhar permeia as cenas do início ao fim, seja na cena do crime, nos encontros dos dois protagonistas, que acontecem em dois momentos de vida diferentes, ou mesmo na pista para a descoberta do assassino, que se revela pelo olhar. Por fim, a revisão do caso propicia também um novo olhar sobre a vida.
Se nos construímos como sujeitos nos laços com os outros, o olhar tem um caráter essencial nessa construção. O bebê recém chegado ao mundo, ao viver a primeira experiência de separação, reencontra-se com a mãe num enlace de olhares. Olhos nos olhos, tem suas primeiras sensações sobre a vida, e recebe, através desse olhar, um “recado”, uma mensagem que a mãe lhe transmite. É também pelo olhar do outro que aprendemos a nos ver. Esta imagem que o outro nos devolve com seu olhar vai nos dizendo quem somos. Na adolescência, buscamos outros olhares , desde outros que não nossos pais a nos dizerem quem somos, até a visão outra que precisamos alcançar do mundo, numa perspectiva própria.
O personagem do filme empreende um doloroso mergulho em seu passado, perseguindo a elaboração de situações que ainda careciam de ser significadas, e renova-se libertando-se de seus bloqueios. Bonita a cena em que ele, ao olhar a palavra que havia rabiscado num pedaço de papel, à cabeceira da cama, palavra lida já tantas vezes, sorri e lhe acrescenta uma letra, transformando “temo” em “te amo”. Ele sai, então, decidido a viver seu amor. Ela lhe diz:" Vai ser complicado." "Não me importo", diz ele.
É sempre tempo para olhar com outros olhos, buscar uma diferente visada, ou diferentes campos para alcançar com nossa visão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O SUJEITO E SUA CONTRADIÇÃO

O discurso da Modernidade é o discurso das liberdades fundamentais do ser humano,
e a Modernidade é a própria inauguração da idéia liberal, da escolha, da individualidade.
A liberdade de ser quem eu quero ser, fazer minha própria escolha, viver a vida do meu jeito, construir minha própria identidade... Em nosso mundo chamado pós-moderno, vivemos o auge da reivindicação das liberdades. Somos todos livres, aptos a fazer nossas escolhas...
Lacan, psicanalista francês que, na década de 50 reformulou a psicanálise fundada por Freud, refere-se a este discurso de liberdade como um delírio. Portanto, além de livres, segundo Lacan somos também delirantes... E esta idéia lacaniana se fundamenta na noção mais importante da psicanálise, aquela que lhe deu origem e que escandalizou a sociedade vitoriana da época de Freud: a noção do inconsciente. O gênio de Freud desbancou toda essa autonomia, ao revelar-nos divididos entre, por um lado, este que facilmente reconhecemos e assumimos como nós mesmos: o nosso eu, e, por outro lado, esse obscuro e estranho que mora em nós, o inconsciente. Dele nada sabemos.
Esta é a contradição do sujeito humano. Este que se pretende dono de si, livre para fazer suas escolhas, e este que tantas vezes não tem escolha, que se vê tantas vezes refém de si mesmo.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

OS TEMAS INSISTENTES

Algo sempre insiste em nosso discurso, em nossos gestos, nossos atos, em nossa história. "A história se repete", ouvimos tantas vezes. Sim,repete-se, à reveleia de nossas vontades, tantas vezes, e também se recria, se renova, se faz diferente. Assim somos nós, feitos de insistências e repetições e da mais pura invenção. Seres notoriamente contraditórios, esses que somos. Esses que se afirmam "os mesmos" embora sejam tantos outros pela vida afora. Tão desejosos de mudança, de traços que nos façam diferença, e tão apegados às conhecidas e familiares facetas de nós mesmos...
Visitei esta semana o museu Iberê Camargo, onde estão expostas obras de Iberê e do uruguaio Torres Garcia. O conjunto da obra de um artista não foge a esta dualidade , onde o novo e o repetido se combinam a constituir identidades. Na obra de Iberê me toca o tema do ciclista, este personagem sombrio, solitário, ora a percorrer caminhos a bordo de sua bicicleta, ora estático, numa pose frontal na tela, a olhar, a bicicleta ao longe, ou ainda estirado ao solo, será que extenuado pelo cansaço, será que desesperançado... São fortes as telas onde Iberê repete o tema do homem e de sua bicicleta. Um homem que pode estar em movimento ou aparentemente estático. Na solidão inerente ao humano, esta em que o homem conversa consigo mesmo...