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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

SEM DATA MARCADA

O prazo final para realizar a inscrição para o vestibular da UFRGS se aproxima. O prazo coloca um limite datado para um processo interno que, sabemos, não tem como ser tratado com essa precisão. Um processo que é o de reconhecimento de si, de uma verdadeira reedição de si, que se dá na adolescência, e que coincide com assumir-se em vários sentidos, inclusive fazendo uma opção profissional. Claro que a vida inclui os prazos, as burocracias, as provas. A aptidão para todos esses desafios que a vida nos propõe, no entanto, é desenvolvida num caminho que é sempre singular, e não tem hora nem data marcada. Este caminho pelo qual nos vamos construindo. É preciso respeitar este ritmo característico de cada um, que foi imprimido pela história de cada sujeito, por este contexto que é sempre individual, tem seus próprios indícios, seus próprios entraves, suas consequências próprias. Este é o meu recado para aqueles que estão, às vésperas das inscrições, angustiados por ter de cumprir prazos. A essência de tudo isto, a construção de si mesmo, de uma identidade, de um projeto de vida, é algo muito maior. Inscrever-se para o vestibular, escolher uma profissão, é bom que se faça realmente assumindo nossa diferença.

domingo, 29 de janeiro de 2012

ESCOLHAS FELIZES

Entrei na locadora disposta a escolher alguns filmes. Sem a listinha. Sim, importante esta listinha, fruto da minha pesquisa prévia, com os filmes premiados ou destacados nas críticas especializadas. Passo os olhos pelo grande acervo classificado em gêneros.
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

OS TEMAS INSISTENTES

Algo sempre insiste em nosso discurso, em nossos gestos, nossos atos, em nossa história. "A história se repete", ouvimos tantas vezes. Sim,repete-se, à reveleia de nossas vontades, tantas vezes, e também se recria, se renova, se faz diferente. Assim somos nós, feitos de insistências e repetições e da mais pura invenção. Seres notoriamente contraditórios, esses que somos. Esses que se afirmam "os mesmos" embora sejam tantos outros pela vida afora. Tão desejosos de mudança, de traços que nos façam diferença, e tão apegados às conhecidas e familiares facetas de nós mesmos...
Visitei esta semana o museu Iberê Camargo, onde estão expostas obras de Iberê e do uruguaio Torres Garcia. O conjunto da obra de um artista não foge a esta dualidade , onde o novo e o repetido se combinam a constituir identidades. Na obra de Iberê me toca o tema do ciclista, este personagem sombrio, solitário, ora a percorrer caminhos a bordo de sua bicicleta, ora estático, numa pose frontal na tela, a olhar, a bicicleta ao longe, ou ainda estirado ao solo, será que extenuado pelo cansaço, será que desesperançado... São fortes as telas onde Iberê repete o tema do homem e de sua bicicleta. Um homem que pode estar em movimento ou aparentemente estático. Na solidão inerente ao humano, esta em que o homem conversa consigo mesmo...

domingo, 24 de abril de 2011

REEDIÇÃO

Ao nascimento, fomos nomeados. Carregamos pela vida o nome, o corpo dotado de certas feições que não escolhemos, nossa constituição deu-se num contexto arranjado por aqueles que nos antecederam, os fatos que fundaram nossa história tiveram outros por protagonistas. Não inventamos nada disto. Quando crianças, disseram-nos as palavras que aprendemos a repetir, deram-nos uma versão da vida, do mundo. Um ideário para crer, os livros que devíamos ler, o comportamento que devíamos adotar. Acostumamos o ouvido com a música preferida por nossos pais, o paladar com suas preferências ou regras nutricionais, nossos pés trilharam os caminhos por eles indicados.
Quando, em meio ao lento e emocionante processo pelo qual crescemos, nos vemos em outro momento, frente às possibilidades, frente às escolhas, frente a nós mesmos, à vida que desejamos construir, surge um estranhamento e uma angústia. Estranhamento com aqueles pais, meras pessoas, de carne e osso, agora. Estranhamento com o mundo, que não era bem aquele no qual acreditáramos, com este que vemos no espelho – quem será? – com tudo, enfim, que antes nos parecia habitual e conhecido.
Torna-se, neste momento, necessária uma reinvenção, uma reedição de nossa própria história, de nossa visão de mundo, de nós mesmos e de nossos projetos, que não mais aceitam fantasias. Queremos colocar os pés na realidade do mundo, escolher nosso lugar, ocupá-lo, fazer um papel no cenário da vida. E então, encorajados, saímos da casa protegida e vamos prá rua, pro mundo.

sábado, 23 de outubro de 2010

O NORMAL TEM LUGAR EM NOSSO TEMPO?

Recentemente, durante um encontro com pais de alunos de uma escola onde fui convidada a falar sobre adolescência, um dos presentes lançou esta pergunta: como saber o que é normal e o que não é? É evidente que o pai em questão referia-se ao adolescente saudável e o adolescente que mereceria uma preocupação a mais ou mesmo uma indicação terapêutica. Pensando assim, em termos de saúde emocional, podemos pensar que pode ser preocupante o adolescente que não se rebela, que não questiona, que não se diferencia, já que a consolidação da identidade passa necessariamente por essas tensões.
Agora, sobre a palavra normal, aquilo que está dentro da norma, é de se pensar como fica a normalidade numa sociedade em que cada vez mais nos distanciamos da norma, da tradição, da lei. A Modernidade Líquida, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ou a pós- modernidade, esse tempo que é o nosso, esse mundo desestabilizado, mundo sem certezas, sem modelos a seguir, mundo das inesgotáveis possibilidades em oferta, parece não ser exatamente o espaço propício para o “normal”. Se na Modernidade a experiência da desestabilização estava associada à loucura , à doença e ao fracasso, no mundo de hoje a instabilidade, a frequente e inevitável necessidade de reconfigurações a que são submetidas as subjetividades, e a consequente fragilização que acomete os sujeitos agora se generaliza, acercando-se de uma normalidade. As subjetividades, no contemporâneo, são constantemente bombardeadas pelos mass mídia, as propagandas infindáveis que nos invadem a qualquer momento em casa, nas ruas, na tela do computador, as mensagens do capitalismo mundial integrado a nos induzir a comprar, os produtos que nos seduzem e que tão rapidamente esgotam suas validades e precisam ser substituídos numa corrida incansável contra a defasagem, numa luta incessante para manter a sensação de fazer parte, de estar atualizado, não ficar à margem de toda essa engrenagem. Difícil dizer o que é normal num mundo tão frenético que por si já nos remete a alguma insanidade.

domingo, 6 de junho de 2010

CORPO E ALMA

Belos corpos ilustram abundantemente as propagandas da indústria da nutrição e da beleza. Revistas e telas de tv e computador impõem suas mensagens, adentram as subjetividades, ditam comportamentos, incitam desejos. Fabricam sujetividade em massa.
A megaindústria associada da beleza, da nutrição e da saúde coloca no mercado constantemente uma infinidade de produtos que prometem reparar, aperfeiçoar, renovar o corpo, livrá-lo das marcas do tempo e da vida. Também a indústria farmacológica promete alívio e cura a toda sorte de sintomas decorrentes do modo de vida acelerado e sujeito a tantas pressões que caracteriza a sociedade contemporânea.
Se em outros tempos a sede do ser, da própria identidade, era a alma, e sacrifícios de toda sorte eram utilizados com o nobre fim de purificá-la e salvá-la, aperfeiçoá-la, hoje, em nosso tempo, o corpo passa a se constituir no lugar de sede identitária. Contraposta à eternidade da alma está a finitude do corpo, com seu prazo de validade. E,se outrora,a salvação da alma era a essência da finalidade da vida humana, hoje vive-se a urgência de salvar o corpo, recuperá-lo todos os dias, buscar receitas de bem viver e de resgate da saúde, da beleza e do vigor do corpo.
Se, também em outros tempos, o homem, seu comportamento e suas ações
se definiam por seu lugar na sociedade, hoje, ao contrário,verifica-se a alta dos sentimentos hedonistas, do individualismo, da perda de sentido das causas sociais,uma sociedade onde cada um cuida de si, onde impera o "eu primeiro".
Se, ainda, em outros tempos, a política era o lugar do exercício da cidadania, para onde convergiam os interesses de todos, hoje ela é vista como o espaço da mentira e do roubo, enquanto a publicidade passou a ocupar esse lugar, e é assim que vêem-se atualmente os anúncios publicitários comprometidos com a cidadania, a ecologia e com os interesses gerais e comuns da sociedade. E as propagandas prometem cuidados e orientações para a vida de todos nós.
Cuidar do corpo, portanto, significa hoje o melhor meio de cuidar de si mesmo, de se afirmar, de sentir-se bem e feliz. Exigências sem fim são feitas ao corpo, coagindo-o a apresentar-se cada vez mais e obrigatóriamente saudável,jovem e capaz de produzir prazer.Cabe a cada corpo estar permanentemente preparado para ser visto, exposto, filmado, fotografado.
Se o homem contemporâneo parece tão alienado de sua ligação com a natureza e com os outros homens, se parece tão concentrado em suas próprias causas, seu próprio corpo, torna-se acima de tudo importante que busquemos o resgate desse mundo sensível, ao invés das imagens, o resgate da aproximação entre os homens, do valor da coletividade. E talvez possamos nos reconciliar com nossa essência mais humana. Com nossa alma humana.

sábado, 16 de janeiro de 2010

UMA REFLEXÃO SOBRE A VOCAÇÃO

A palavra vocação, de origem latina (vocatio), significa chamado, e é com frequencia utilizada nas abordagens referentes à escolha profissional. O que é vocação? Existe mesmo a vocação, ou o sujeito pode, como alguns afirmam, desenvolver as habilidades necessárias para assumir o papel profissional que decidir ?
Bem, realmente, desde o início da modernidade, a sociedade vem se pautando pelo ideário liberal, e o homem vem se atrevendo a se pensar como um ser que decide o próprio destino. Lá na idade média, por exemplo, os destinos do homem estavam designados desde o nascimento, e a profissão, assim como tudo o mais que se referia ao lugar ocupado pelas pessoas naquela sociedade, eram pré-determinados, seja pelos laços de sangue ou pelos desígnios divinos.
A visão que temos das coisas é sempre determinada pelo ponto de onde olhamos, de onde nos situamos. Vivemos numa sociedade capitalista, em plena chamada “pós-modernidade”, o que significa que somos livres para decidir. E como...., já que as opções são cada vez mais numerosas, e não cessam de se ampliar. Tudo muda tão rápido em nossa sociedade, que temos dificuldade para fazer projetos a longo prazo.
Vejo que é muito comum que as pessoas falem em decidir “o que fazer”, como se a profissão fosse apenas mais uma das tarefas que temos pela vida. O fazer parece estar mais associado às necessidades, habilidades, e aos interesses mais imediatos.
E realmente, a profissão é um fazer. Mas um fazer que se diferencia de outros fazeres, como tomar banho, fazer comida. É um fazer que confere sentido ao nosso viver, que define o papel que desempenhamos na sociedade. A profissão é um fazer que se relaciona essencialmente com o que somos, e o que somos com o que fazemos.
Em nossa sociedade hipercapitalista, ordenada pela técnica e pela ciência, predomina a tendência a explicar as coisas do ponto de vista da biogenética, da neurociência. É assim que as compreensões contemporâneas acerca das identidades, de quem somos nós, se encaminham também por aí. Somos assim porque teríamos um gen que nos conferira essa característica, a depressão e outras patologias seriam explicáveis por desequilíbrios químicos, e assim por diante.
Quero lançar o olhar em outra perspectiva. Para uma compreensão histórica e
multifacetada do ser humano. O homem se constrói na história que vive, foi no fazer de
sua história que a humanidade se construiu. E esse é um processo que tem movimento, um movimento que é o da vida humana.
Quando nascemos, nossos pais, que tiveram seus pais, com suas histórias, tinham expectativas a nosso respeito, quiseram coisas para nós, estabeleceram conosco uma relação que foi determinando, em grande parte, o que somos hoje. É isso que quero dizer. O que somos não é uma invenção tão liberal assim. Trazemos em nós inclinações que são fruto das experiências que vivemos em nossas histórias, determinadas pelas relações que se estabeleceram nesse contexto, e, ao mesmo tempo, temos em nossas mãos, e isso é importante, as possibilidades de mudar esse destino, de transformá-lo.
Acredito, portanto, que somos , sim, vocacionados, ou “ chamados”, não por instâncias divinas, mas por essas determinações históricas que vão nos formando, nos construindo. O que vamos fazer com isso? Bem, aí é realmente uma questão de escolha.

sábado, 2 de janeiro de 2010

PARA COMEÇO DE CONVERSA

Contardo Calligaris, psicanalista, em seu livro “ Terra de Ninguém”, escreve assim, na crônica “A moda: belezas extremas e indecisas”:

“ Converso com um garoto de 16 anos e com sua mãe, exasperada. O garoto resolveu mudar de estilo. Jogou fora todas as suas roupas folgadas, sem pedir permissão, para prevenir uma eventual hesitação dos pais na hora de financiar a troca de vestuário.
Agora, ele quer calças estreitas e camisetas justas. O problema é que uma cena parecida já aconteceu um ano atrás. Naquela ocasião, a roupa apertada foi para o lixo- substituída por calças e camisetas que pareciam velas mestras.
A mãe: “Por que mudar, assim, de repente?” O garoto: “Agora todo mundo que é legal se veste assim.” A mãe, irritadíssima: “ Você não deveria ser você mesmo? Ter um estilo seu, sem preocupar-se com os outros?”
É fácil simpatizar com a mãe, embora não saibamos muito bem o que é “ser você mesmo.” De qualquer forma, concordemos: não é bom estar sob o domínio do que pensam os outros. Seja você mesmo, livremente,escute e respeite seus impulsos mais singulares: essa é uma das regras preferidas da modernidade. Uma outra regra diz, ao contrário: preocupe-se bastante com o olhar dos outros, pois, neste mundo, todos os cargos são eleitorais, ou seja, cada um deve seu lugar à aprovação que encontra e suscita. O garoto, mudando de estilo, busca conciliar as duas regras. Ele renova seu aspecto para ser mais “ele mesmo”. Mas precisa da aprovação do grupo das calças justas: sem o olhar dos outros, seu novo “ele mesmo” não valeu nada. ”

Pois é mais ou menos esse o impasse em que nos encontramos na sociedade consumista e espetacular em que vivemos todos nós. Espetacular quero dizer de espetáculo, mesmo. Precisamos nos mostrar, aparecer o tempo todo, “estar bem na foto”, estar de bem com a opinião pública. E ainda, uff, dizem que temos que ser nós mesmos. Essas contradições rondam nossas identidades . E é neste contexto que precisamos escolher nosso caminho, quem desejamos ser, que lugar vamos querer ocupar nesse mundo.
Este é um espaço que pretendo possa ajudar nesse processo de escolha, de tomada de decisão, de consolidação de identidade. Um espaço para a gente exercitar a reflexão sobre nós mesmos, sobre a realidade, sobre os papéis que vamos assumir para mudar o mundo.