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sexta-feira, 12 de outubro de 2012
SEM DATA MARCADA
O prazo final para realizar a inscrição para o vestibular da UFRGS se aproxima. O prazo coloca um limite datado para um processo interno que, sabemos, não tem como ser tratado com essa precisão. Um processo que é o de reconhecimento de si, de uma verdadeira reedição de si, que se dá na adolescência, e que coincide com assumir-se em vários sentidos, inclusive fazendo uma opção profissional.
Claro que a vida inclui os prazos, as burocracias, as provas. A aptidão para todos esses desafios que a vida nos propõe, no entanto, é desenvolvida num caminho que é sempre singular, e não tem hora nem data marcada. Este caminho pelo qual nos vamos construindo. É preciso respeitar este ritmo característico de cada um, que foi imprimido pela história de cada sujeito, por este contexto que é sempre individual, tem seus próprios indícios, seus próprios entraves, suas consequências próprias.
Este é o meu recado para aqueles que estão, às vésperas das inscrições, angustiados por ter de cumprir prazos. A essência de tudo isto, a construção de si mesmo, de uma identidade, de um projeto de vida, é algo muito maior. Inscrever-se para o vestibular, escolher uma profissão, é bom que se faça realmente assumindo nossa diferença.
domingo, 24 de abril de 2011
REEDIÇÃO
Ao nascimento, fomos nomeados. Carregamos pela vida o nome, o corpo dotado de certas feições que não escolhemos, nossa constituição deu-se num contexto arranjado por aqueles que nos antecederam, os fatos que fundaram nossa história tiveram outros por protagonistas. Não inventamos nada disto. Quando crianças, disseram-nos as palavras que aprendemos a repetir, deram-nos uma versão da vida, do mundo. Um ideário para crer, os livros que devíamos ler, o comportamento que devíamos adotar. Acostumamos o ouvido com a música preferida por nossos pais, o paladar com suas preferências ou regras nutricionais, nossos pés trilharam os caminhos por eles indicados.
Quando, em meio ao lento e emocionante processo pelo qual crescemos, nos vemos em outro momento, frente às possibilidades, frente às escolhas, frente a nós mesmos, à vida que desejamos construir, surge um estranhamento e uma angústia. Estranhamento com aqueles pais, meras pessoas, de carne e osso, agora. Estranhamento com o mundo, que não era bem aquele no qual acreditáramos, com este que vemos no espelho – quem será? – com tudo, enfim, que antes nos parecia habitual e conhecido.
Torna-se, neste momento, necessária uma reinvenção, uma reedição de nossa própria história, de nossa visão de mundo, de nós mesmos e de nossos projetos, que não mais aceitam fantasias. Queremos colocar os pés na realidade do mundo, escolher nosso lugar, ocupá-lo, fazer um papel no cenário da vida. E então, encorajados, saímos da casa protegida e vamos prá rua, pro mundo.
Quando, em meio ao lento e emocionante processo pelo qual crescemos, nos vemos em outro momento, frente às possibilidades, frente às escolhas, frente a nós mesmos, à vida que desejamos construir, surge um estranhamento e uma angústia. Estranhamento com aqueles pais, meras pessoas, de carne e osso, agora. Estranhamento com o mundo, que não era bem aquele no qual acreditáramos, com este que vemos no espelho – quem será? – com tudo, enfim, que antes nos parecia habitual e conhecido.
Torna-se, neste momento, necessária uma reinvenção, uma reedição de nossa própria história, de nossa visão de mundo, de nós mesmos e de nossos projetos, que não mais aceitam fantasias. Queremos colocar os pés na realidade do mundo, escolher nosso lugar, ocupá-lo, fazer um papel no cenário da vida. E então, encorajados, saímos da casa protegida e vamos prá rua, pro mundo.
sábado, 23 de outubro de 2010
O NORMAL TEM LUGAR EM NOSSO TEMPO?
Recentemente, durante um encontro com pais de alunos de uma escola onde fui convidada a falar sobre adolescência, um dos presentes lançou esta pergunta: como saber o que é normal e o que não é? É evidente que o pai em questão referia-se ao adolescente saudável e o adolescente que mereceria uma preocupação a mais ou mesmo uma indicação terapêutica. Pensando assim, em termos de saúde emocional, podemos pensar que pode ser preocupante o adolescente que não se rebela, que não questiona, que não se diferencia, já que a consolidação da identidade passa necessariamente por essas tensões.
Agora, sobre a palavra normal, aquilo que está dentro da norma, é de se pensar como fica a normalidade numa sociedade em que cada vez mais nos distanciamos da norma, da tradição, da lei. A Modernidade Líquida, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ou a pós- modernidade, esse tempo que é o nosso, esse mundo desestabilizado, mundo sem certezas, sem modelos a seguir, mundo das inesgotáveis possibilidades em oferta, parece não ser exatamente o espaço propício para o “normal”. Se na Modernidade a experiência da desestabilização estava associada à loucura , à doença e ao fracasso, no mundo de hoje a instabilidade, a frequente e inevitável necessidade de reconfigurações a que são submetidas as subjetividades, e a consequente fragilização que acomete os sujeitos agora se generaliza, acercando-se de uma normalidade. As subjetividades, no contemporâneo, são constantemente bombardeadas pelos mass mídia, as propagandas infindáveis que nos invadem a qualquer momento em casa, nas ruas, na tela do computador, as mensagens do capitalismo mundial integrado a nos induzir a comprar, os produtos que nos seduzem e que tão rapidamente esgotam suas validades e precisam ser substituídos numa corrida incansável contra a defasagem, numa luta incessante para manter a sensação de fazer parte, de estar atualizado, não ficar à margem de toda essa engrenagem. Difícil dizer o que é normal num mundo tão frenético que por si já nos remete a alguma insanidade.
Agora, sobre a palavra normal, aquilo que está dentro da norma, é de se pensar como fica a normalidade numa sociedade em que cada vez mais nos distanciamos da norma, da tradição, da lei. A Modernidade Líquida, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ou a pós- modernidade, esse tempo que é o nosso, esse mundo desestabilizado, mundo sem certezas, sem modelos a seguir, mundo das inesgotáveis possibilidades em oferta, parece não ser exatamente o espaço propício para o “normal”. Se na Modernidade a experiência da desestabilização estava associada à loucura , à doença e ao fracasso, no mundo de hoje a instabilidade, a frequente e inevitável necessidade de reconfigurações a que são submetidas as subjetividades, e a consequente fragilização que acomete os sujeitos agora se generaliza, acercando-se de uma normalidade. As subjetividades, no contemporâneo, são constantemente bombardeadas pelos mass mídia, as propagandas infindáveis que nos invadem a qualquer momento em casa, nas ruas, na tela do computador, as mensagens do capitalismo mundial integrado a nos induzir a comprar, os produtos que nos seduzem e que tão rapidamente esgotam suas validades e precisam ser substituídos numa corrida incansável contra a defasagem, numa luta incessante para manter a sensação de fazer parte, de estar atualizado, não ficar à margem de toda essa engrenagem. Difícil dizer o que é normal num mundo tão frenético que por si já nos remete a alguma insanidade.
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