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quinta-feira, 1 de outubro de 2015
ENTREVISTA : OS JOVENS E A ESCOLHA DE CARREIRA
Entrevista concedida a Thayna Iglesias
1. É muito comum os adolescentes não saberem que curso escolher?
É não só comum, é natural esse não saber, o estranho seria se soubessem. E mesmo quando o jovem se sente mais preparado para fazer sua escolha, ele
vai descobrir que, ao mesmo tempo em que se apoia em alguns saberes para
exercer sua escolha, que há, inevitavelmente um campo de não saber com o
qual terá que se ver. Na escolha profissional, na vida.
2. Qual o melhor método para escolher uma profissão sem ter que recorrer para
um teste vocacional?
De nada valem os métodos se não houver o fundamental: um sujeito em condições de fazer sua escolha profissional. Por exemplo, um adolescente que
ainda não se encontre capaz de separar-se, distinguir-se de seus pais. Ele certamente não reuniu os pré-requisitos básicos para poder realizar essa tarefa, por mais que a sociedade lhe cobre isso. Por isso temos que ver esse sujeito na sua particularidade. Para todos o caminho vai ser a reflexão acerca
de si, essa olhada fundamental para si, para suas identificações, seus interesses, suas aptidões, sua visão de mundo. No melhor dos casos, é tudo isso que canalizamos para nosso papel profissional. Mas para muitos, é preciso contar com uma ajuda especializada, seja uma orientação vocacional ou até mesmo uma psicoterapia, que dê ao sujeito um suporte nesse momento. Ainda
sem contar que uma grande parcela de jovens nesse mundo trabalha em condições sub-humanas, e não tem escolha.
3. Os testes encontrados na internet podem ser eficazes em ajudar na escolha do curso?
Não digo que não ajudem, como muitos recursos podem ser úteis, a busca de informações, conversas com pais, com professores, com profissionais, e até mesmo testes. Mas como já disse acima, nada disso é o essencial. O essencial está associado com a verdade de cada um. Com essa necessidade de se implicar nesse processo, com a capacidade, a condição de fazê-lo, buscando perguntar-se e, a partir de seus questionamentos, construir algumas respostas, realizar sua escolha.
4. Como uma psicóloga trabalha para ajudar os jovens a descobrirem sua vocação?
O trabalho do psicólogo na orientação vocacional tem a marca da formação deste profissional, suas convicções, sua linha, como dizemos. Estou embasada, em meu trabalho, numa abordagem clínica e psicanalítica, o que pressupõe que estamos tratando, nessa clínica, com aquilo que o sujeito não sabe de si mesmo, essa divisão fundamental do sujeito, trabalho com um sujeito dividido entre saber e verdade, entre consciente e inconsciente. Um jovem pode, por exemplo, decidir-se pela Medicina por um desejo de reparar, através de sua escolha, algo de uma ordem inconsciente e que o antecede, que pode ter, por exemplo, relação com a maneira como seus pais sempre se diminuíram, sentiram-se inferiores. Fazer Medicina, para este jovem, e ele não tem consciência disso, é uma via para engrandecer-se. Isto para exemplificar, apenas, e é um caminho que visa que o sujeito se aproprie de suas motivações, principalmente aquelas de ordem inconsciente. Cada caso é um caso, tem suas particularidades, seu tempo, suas questões próprias, é uma caminhada única a ser percorrida pelo sujeito e pelo psicólogo, juntos.
5. Por que muitos acabam escolhendo um curso e se arrependendo depois?
É sempre uma possibilidade uma mudança em nosso percurso, a reavaliação
de um projeto, de uma direção tomada. A palavra arrependimento nos remete a culpas e pressões, como se houvesse uma resposta única, certa, a ser encontrada. Não se trata disso. É claro que escolher nos coloca frente a riscos e responsabilidades que temos que assumir. Este é o preço de crescer, assumir um lugar de adulto, fazer escolhas. Há sempre perdas a encarar nesse processo. Muitas vezes acontece de o jovem não estar preparado para a escolha, não estar amadurecido para isto, e, como consequência, mostrar uma dificuldade em posicionar-se como sujeito, alienando-se ao desejo dos pais, ao que a sociedade lhe aponta como uma via para ser bem sucedido. A pressão em nossa sociedade para que se atinja esse ideal do mundo contemporâneo capitalista, essa obrigatoriedade de ser feliz, muito bem sucedido, ganhar muito bem, desempenhar-se bem nessa tarefa solitária do homem moderno, de construir-se, inventar-se. Isto não é pouca coisa. E certamente o jovem sofre essa pressão.
6. O que é mais importante levar em conta na hora da decisão?
O mais importante é, essencialmente, distinguir, separar, o que é seu em relação ao que é relativo aos pais, à família. Levar em conta, a partir da herança familiar, a sua particularidade, suas próprias tendências, suas habilidades, suas concepções de mundo. Assumir sua diferença.
7. A família influencia muito na escolha do jovem?
O importante nesse momento não é deixar de sofrer influências, muito pelo contrário, é preciso enxergar essas influências, assumi-las, para, então, ter a condição de, a partir delas, construir algo próprio. É óbvio que a família influencia, é justamente nos laços familiares que nos constituímos. Talvez seja mais problemático quando nos pomos a negar essa ascendência, seja da parte dos pais que não falam com o filho sobre sua escolha evitando influenciar (como se fosse possível...), seja da parte dos filhos essa negação.
terça-feira, 23 de junho de 2015
NÓS, OS GERENTES
Exercendo meu hábito de leitura diária de alguns sites de notícia, que, aliás, misturam fatos relevantes da política e do cotidiano com
irrelevâncias como o último ensaio fotográfico de alguma atriz, as férias de algum famoso em algum lugar do mundo, ou as fofocas acerca da vida
íntima de algum ator, deparo-me com a entrevista de uma conhecida atriz global, que, além de atualizar os internautas a respeito de um procedimento
estético que havia feito recentemente, comenta sobre as atribulações do dia a dia, das dificuldades que a burocracia impõe a todos nós, e tudo o mais, e acaba por comentar sobre um curso que havia feito de gerenciamento de stress, que ela passa então a elogiar e propagandear. O que me chamou
atenção foi esse termo, "gerenciamento de stress". Parece que a vida contemporânea nos transforma a todos em gerentes. Desprovidos, nós, homens e mulheres da modernidade avançada, de um norte, das referências herdadas da tradição, confrontados à incessante multiplicidade de escolhas a fazer ("a vida é feita de escolhas"), à angustiante necessidade de nos fazermos a nós mesmos, de nos fabricarmos, acometidos pelo stress, pela angústia e pela insegurança, ainda assim teremos que ser gerentes... Gerentes de crise, gerentes de finanças, gerentes de carreira, gerentes de stress...
A angústia dos jovens frente à escolha profissional, bem como dos adultos, profissionais maduros, está muito determinada por esse "papel" que a sociedade contemporânea lhes aponta como fundamental, esse de ser um bom gerente. Faça o que quiser, mas seja um gerente bem sucedido, a responsabilidade sobre os rumos, as estratégias e os objetivos a alcançar são de sua alçada. A urgência de sucesso, de felicidade, de soluções criativas em nossa época é realmente um importante fator de pressão emocional, de onde deriva esse interesse tão acentuado nessa figura, ou nesse papel do gerente bem sucedido.
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
domingo, 1 de setembro de 2013
quinta-feira, 11 de abril de 2013
SURPRESAS COM O TEMPO
A relação humana com o tempo é carregada de angústia, de frustração, de ansiedade, de exigências... O tempo, esse invisível
companheiro, nos braços de quem nos deitamos tão sossegadamente às vezes, no descanso, no sono confiante de quem se permite entregar, com serenidade, ou mesmo com indolência, com preguiça ou despreocupação, mas por outras tantas vezes nos encontramos como
que a persegui-lo, num injusto e desigual enfrentamento. A nossa reincidente questão com a falta ele nos expõe, como uma ferida...
Nos vemos a acusá-lo de nos faltar, sempre nos faltar. Quando a verdade que escondemos de nós mesmos é a inquietante essência da qual somos feitos. Nós é que nos fazemos de falta. Impossível a nossa completude, a nossa perfeição.
Muitas vezes elegemos a pontualidade de um momento da vida para exigirmos dele uma escolha, uma realização, um passo a dar,
uma conclusão a tirar, um percurso a concluir. Tomados de ansiedade e de ilusórias certezas, achamos que aquele é o instante destinado a este salto. O calendário, a agenda, o relógio, o tempo tem que ser alcançado...
Pois é ele, o tempo, que, em sua maravilhosa capacidade de surpreender-nos, nos avisa, talvez quando achemos fora de época,
ou talvez quando nos apanhe meio despreparados(ou preparados), que não marquemos hora, que não sejamos tão senhores da situação,
que não nos preocupemos em estar no controle, e, quando formos assim surpreendidos, estaremos diante de um instante criativo, capaz
de nos recompensar e de nos renovar as forças e alegrias. Porque é tudo, na vida, a seu tempo...
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013
No vídeo abaixo, a música para os ouvidos, a música para a alma. Eduardo Galeano sempre nos provoca com suas palavras
a pensar no mundo em que vivemos e a querer viver o mundo que pensamos. Digo música, porque ele escreve de uma forma poética, a beleza de seu texto, como a melhor das poesias, mira um mundo melhor, tem um compromisso permanente com a mudança. É sempre tocante,
comovente, inquietante para mim. Neste vídeo ele fala sobre a utopia, que serve, segundo nos diz, para caminhar. Para todos nós, que estamos, neste final de fevereiro com a sensação de mais uma caminhada que começa, para que nos valha como inspiração,para que nossas escolhas visem, corajosamente, transformar o mundo.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
SEM DATA MARCADA
O prazo final para realizar a inscrição para o vestibular da UFRGS se aproxima. O prazo coloca um limite datado para um processo interno que, sabemos, não tem como ser tratado com essa precisão. Um processo que é o de reconhecimento de si, de uma verdadeira reedição de si, que se dá na adolescência, e que coincide com assumir-se em vários sentidos, inclusive fazendo uma opção profissional.
Claro que a vida inclui os prazos, as burocracias, as provas. A aptidão para todos esses desafios que a vida nos propõe, no entanto, é desenvolvida num caminho que é sempre singular, e não tem hora nem data marcada. Este caminho pelo qual nos vamos construindo. É preciso respeitar este ritmo característico de cada um, que foi imprimido pela história de cada sujeito, por este contexto que é sempre individual, tem seus próprios indícios, seus próprios entraves, suas consequências próprias.
Este é o meu recado para aqueles que estão, às vésperas das inscrições, angustiados por ter de cumprir prazos. A essência de tudo isto, a construção de si mesmo, de uma identidade, de um projeto de vida, é algo muito maior. Inscrever-se para o vestibular, escolher uma profissão, é bom que se faça realmente assumindo nossa diferença.
domingo, 12 de agosto de 2012
AQUI É O MEU LUGAR
Fui ao cinema para ver Woody Allen, mas por um engano de horário o filme que passava era ' Aqui é o meu Lugar', do diretor italiano Paolo Sorrentino. Tomei o acontecido como um indício de que ali poderia ser o meu lugar... Logo nas primeiras cenas cheguei a duvidar, tal o estranhamento que me causou a imagem de Sean Penn, diferente de todas as suas atuações. Uma máscara. Maquiagem carregadíssima, lábios pintados, cabelão armado, roupas e botas pretas. O personagem, um roqueiro aposentado que, apesar disso, carregava sua figura intocada pela passagem do tempo. Algo de uma indefinição o marcava. A voz, de um timbre não qualificável, não era masculina. Nem mesmo feminina. O andar, lento e balançado, fazia o personagem parecer movido em câmera lenta. O roqueiro brilhantemente interpretado por Sean Penn apresenta-se logo de início como um depressivo, em sua fala lenta e monótona, sua carência de esperança, de atitudes, de desejo. Seu quase apagamento, salvo pela relação com a mulher, que trata de sublinhar, a todo tempo, as possibilidades de vida e de relação com o desejo. Linda trajetória da personagem, que, ao se defrontar com a morte do pai, com quem não se relacionava desde a juventude,toma para si mesmo o desejo do pai, assumindo assim sua identificação com ele e, através de uma verdadeira viajem, fazer a transição para o mundo adulto. Numa cena linda do filme, ele diz que um dia se tem que escolher um momento da vida para não se ter medo.
É disto que o filme nos fala. Da coragem de criar um itinerário próprio, de assumir um destino próprio,de assumir-se além da máscara.
sexta-feira, 27 de julho de 2012
quinta-feira, 26 de julho de 2012
A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA
Um vídeo sobre informação profissional,com o título "Qual a principal característica que um jornalista deve ter?". Ao assistí-lo, não me surpreendi com a diversidade de respostas dos vários profissionais entrevistados, apesar da promessa indicada no título apontar para a distinção de uma única e principal característica...
Fiquei pensando em como nossa tendência simplificadora e carente de respostas que nos apaziguem a angústia frente ao incerto, ao que não conhecemos ou não sabemos como será... Sim, porque por mais que estejamos esclarecidos acerca de uma futura profissão, não há o que nos salve de viver a insegurança frente ao futuro, o medo de "errar", não existe meio de evitar essa condição humana. Viver tem, entre outras conotações, esta de nos arremessar ao incerto, ao duvidoso, ao desconhecido. Inclusive de nós mesmos, já que estamos sempre em movimento, nos transformando, aprendendo,nos surpreendendo.Ainda bem, pode-se dizer...
É bem por isso que não existe nem pode existir a tal característica principal de um determinado profissional, seja qual for a profissão. Ainda bem, pode-se dizer, porque é assim que podemos contar, numa mesma área profissional, com uma diversidade de estilos, diferentes técnicas, conduções diferentes, abordagens diversas. Um mesmo profissional, inclusive, em momentos diferentes de sua carreira, terá desempenhos diferentes, e imprimirá à sua técnica o resultado de sua vivência, de seu aprendizado e de suas condições naquele momento. Assim como podemos salientar em cada profissão, tantas características importantes, ou mesmo alguma que a princípio não estivesse aí listada, que, dependendo de como fosse explorada pelo profissional, pudesse se converter numa importante característica...
Mais importante do que salientar uma qualidade principal para o desempenho de um papel profissional, me parece, sem dúvida, pensar sobre o que nos leva à identificação com este papel. E sobre a importância de, ao invés de seguir clichês ou lugares-comuns, de nos abrirmos para as possibilidades sempre ricas de vivenciar o exercício profissional de um modo singular, que tem a nossa cara, o nosso jeito.
segunda-feira, 2 de julho de 2012
ESCOLHA, DÚVIDA E CERTEZA
A possibilidade da escolha é justamente um marco no amadurecimento de todos nós. Desde crianças, a promessa de ter acesso à liberdade de escolher nos era feita. Já que nenhum de nós escolheu nascer, escolheu o próprio nome, em que condições viria ao mundo, as próprias bases ideológicas que embasariam nossa educação, é claro que não escolhemos. Estivemos, podemos dizer, submetidos, determinados por uma conjuntura que nos antecedeu e que nos deu origem. Ansiamos por fazer nossas próprias opções. E, na infância, imaginamos que a possibilidade de escolher é uma chave que nos conduz a um mundo de liberdade e sucesso.
Quando, então, nos deparamos com as primeiras, experimentamos também a incerteza, a angústia, o receio de perder, ou mesmo o sentimento de perda que as acompanha, inevitavelmente. Pois a opção que não fizemos, esta fica perdida. É então que nos vemos aprendendo que a escolha diz de nossa condição de sujeitos. Estes, que ganham e perdem. Estes que anseiam pelas certezas e são tão cheios de dúvidas. É com isto que temos que nos ver.
Fantasiamos, muitas vezes, que a escolha nos conduzirá à certeza. Como negar que este seria o ideal? Que pudéssemos nos cercar de certezas. Já Descartes preocupava-se com esta questão. E para resolvê-la, obrigou-se a lançar mão de Deus. Pois do que podemos nós, humanos, estar certos de verdade? A certeza, a verdade absoluta, pertencem a um terreno ideal. Nós, seres humanos, desde Freud, descobrimos que somos divididos entre consciência e inconsciência. Este saber absoluto, completo, que tem a ver com a certeza, não podemos alcançá-lo.
É com isto que temos que nos ver, quando escolhemos. Com esta liberdade que é a que podemos ter. Escolher assumindo os riscos, as perdas, bem como os ganhos e alegrias que venham com nossas escolhas.
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O NAVEGADOR E SUA BÚSSOLA
O indivíduo e suas aventuras são uma invenção da Modernidade. A história pessoal,
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
O CÉU É O LIMITE
No vídeo abaixo, da UNICEF, um adolescente moçambicano sonha em ser piloto. O pai o queria mineirador, mas ele lança seu olhar para o céu, e, tal como uma criança, corre pelo campo imitando o vôo de um avião. Para ele, ser piloto se traduz nesta imagem que é de uma pureza infantil, na qual ele é o próprio avião-pássaro de asas abertas, neste movimento que ele, é provável, associe com a liberdade de inventar seu próprio vôo, construindo um projeto diferenciado do destino que o pai havia lhe traçado. A imagem é inspiradora e mesmo comovente, porque nos convida a pensar em nossos próprios sonhos, esses para os quais o céu é o limite...
domingo, 29 de janeiro de 2012
ESCOLHAS FELIZES
Entrei na locadora disposta a escolher alguns filmes. Sem a listinha. Sim, importante esta listinha, fruto da minha pesquisa prévia, com os filmes premiados ou destacados nas críticas especializadas. Passo os olhos pelo grande acervo classificado em gêneros.
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...
sábado, 17 de setembro de 2011
MUDANÇA DE CURSO
Há uma preocupação que cresce nos meios universitários: é grande o número de estudantes que mudam de curso, ou seja, supostamente fizeram uma opção equivocada
e buscam retificá-la. Certamente que esta situação onera os cofres da universidade pública e nos põe a questionar sobre as causas deste problema.
Acho que podemos pensar em muitos aspectos que contribuem para que isto aconteça.
Podemos pensar, e este é o argumento mais utilizado, na pouca idade dos jovens que ingressam na universidade, que muitas vezes tem 16, 17 anos, e, segundo os adeptos deste argumento, não teriam maturidade para fazer uma escolha profissional.
Penso que a questão não se resume à faixa etária dos jovens, mas se estende à própria
família e sociedade que não conseguiram embasá-los e muni-los de recursos para escolher bem, para definir seus projetos de vida. A própria universidade parece não estar preparada para lidar com esta questão, já que sua estrutura não dispõe de mecanismos que pudessem alterar este quadro, como, por exemplo, a formação interdisciplinar nos primeiros semestres, favorecendo e dando condições aos jovens de tomarem suas decisões num processo mais gradual e coerente.
A sociedade contemporânea rege-se pelo pragmatismo e pelos valores de mercado, o que se reflete numa tendência mais objetiva, menos utópica por parte da juventude. O jovem tende a objetivar a escolha da profissão, que acaba por se realizar com pouca base subjetiva. A busca da informação tem primazia sobre a do autoconhecimento. A busca do sucesso e da ascensão econômica prevalecem sobre a da felicidade.
Antigamente os pais “metiam-se” mais nas escolhas dos filhos. A tendência liberal da modernidade vem se acentuando e gera uma sociedade desbussolada, onde faltam as referências. O discurso dos pais é : “ Faça o que você quiser, o importante é que você seja feliz”, o que na verdade só contribui para jogar o jovem no desamparo, na solidão e, mais, na obrigatoriedade de ser feliz, gerando inevitáveis e violentas pressões naquele que precisa traçar o rumo para sua vida, e que, para cumprir tão importante tarefa, certamente precisaria sentir-se acompanhado, orientado.
Outra questão é a crescente e incessante multiplicação das opções disponíveis no mercado. Elas proliferam num ritmo estonteante, acarretando muitas vezes desorientação e confusão.
Tendemos também a julgar a mudança de opção como “erro”, como algo que não deveria acontecer. Quantas vezes, independente da idade, da maturidade que se tenha, precisamos ou queremos mudar de curso na vida ?
e buscam retificá-la. Certamente que esta situação onera os cofres da universidade pública e nos põe a questionar sobre as causas deste problema.
Acho que podemos pensar em muitos aspectos que contribuem para que isto aconteça.
Podemos pensar, e este é o argumento mais utilizado, na pouca idade dos jovens que ingressam na universidade, que muitas vezes tem 16, 17 anos, e, segundo os adeptos deste argumento, não teriam maturidade para fazer uma escolha profissional.
Penso que a questão não se resume à faixa etária dos jovens, mas se estende à própria
família e sociedade que não conseguiram embasá-los e muni-los de recursos para escolher bem, para definir seus projetos de vida. A própria universidade parece não estar preparada para lidar com esta questão, já que sua estrutura não dispõe de mecanismos que pudessem alterar este quadro, como, por exemplo, a formação interdisciplinar nos primeiros semestres, favorecendo e dando condições aos jovens de tomarem suas decisões num processo mais gradual e coerente.
A sociedade contemporânea rege-se pelo pragmatismo e pelos valores de mercado, o que se reflete numa tendência mais objetiva, menos utópica por parte da juventude. O jovem tende a objetivar a escolha da profissão, que acaba por se realizar com pouca base subjetiva. A busca da informação tem primazia sobre a do autoconhecimento. A busca do sucesso e da ascensão econômica prevalecem sobre a da felicidade.
Antigamente os pais “metiam-se” mais nas escolhas dos filhos. A tendência liberal da modernidade vem se acentuando e gera uma sociedade desbussolada, onde faltam as referências. O discurso dos pais é : “ Faça o que você quiser, o importante é que você seja feliz”, o que na verdade só contribui para jogar o jovem no desamparo, na solidão e, mais, na obrigatoriedade de ser feliz, gerando inevitáveis e violentas pressões naquele que precisa traçar o rumo para sua vida, e que, para cumprir tão importante tarefa, certamente precisaria sentir-se acompanhado, orientado.
Outra questão é a crescente e incessante multiplicação das opções disponíveis no mercado. Elas proliferam num ritmo estonteante, acarretando muitas vezes desorientação e confusão.
Tendemos também a julgar a mudança de opção como “erro”, como algo que não deveria acontecer. Quantas vezes, independente da idade, da maturidade que se tenha, precisamos ou queremos mudar de curso na vida ?
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
PROJETO DE VIDA
Gosto muito de dizer que a escolha da profissão é a escolha de um projeto de vida. Quando converso com jovens que buscam definir suas escolhas, um dos grandes desafios que temos é a visualização do sentido maior que está presente nesse processo.
A própria clínica é produtora de sentido. Seja na psicoterapia, ou na orientação vocacional, é atrás de algum sentido que estamos. Jean Paul Sartre, há cinquenta anos atrás, falava na importância de se criar “le project de la vie”. Hoje, a tendência é a dificuldade cada vez maior em acreditar em projetos para a vida inteira... Pois a vida, tal como ela é hoje, apresenta-se como um suceder de episódios, quase como se vivêssemos como nesses seriados, curtos episódios com início, meio e fim, que tem sequencia com os personagens começando a vida do zero, no novo episódio.
No mundo de hoje os estilos de vida, o que é considerado bom, as formas de vida atraentes e tentadoras, o que está na moda, o que dá dinheiro, o que não dá, tudo está em constante e acelerada mudança. A vida inteira, passamos a nos redefinir, nós, criaturas da pós-modernidade. Precisamos definir quem somos e isto nunca é uma questão acabada. Está sempre se refazendo essa tarefa. É por isso que o ‘projeto de vida ‘ parece tão desacreditado, ou pelo menos não soa com a mesma linearidade, constância, e consequente segurança de outros tempos. E também é por isso que estamos frente a uma humanidade desbussolada, desorientada, perdida.
Bem, é principalmente também por isso que talvez seja mais importante ainda que falemos de projetos, de sonhos, de crenças, de rumos.
A própria clínica é produtora de sentido. Seja na psicoterapia, ou na orientação vocacional, é atrás de algum sentido que estamos. Jean Paul Sartre, há cinquenta anos atrás, falava na importância de se criar “le project de la vie”. Hoje, a tendência é a dificuldade cada vez maior em acreditar em projetos para a vida inteira... Pois a vida, tal como ela é hoje, apresenta-se como um suceder de episódios, quase como se vivêssemos como nesses seriados, curtos episódios com início, meio e fim, que tem sequencia com os personagens começando a vida do zero, no novo episódio.
No mundo de hoje os estilos de vida, o que é considerado bom, as formas de vida atraentes e tentadoras, o que está na moda, o que dá dinheiro, o que não dá, tudo está em constante e acelerada mudança. A vida inteira, passamos a nos redefinir, nós, criaturas da pós-modernidade. Precisamos definir quem somos e isto nunca é uma questão acabada. Está sempre se refazendo essa tarefa. É por isso que o ‘projeto de vida ‘ parece tão desacreditado, ou pelo menos não soa com a mesma linearidade, constância, e consequente segurança de outros tempos. E também é por isso que estamos frente a uma humanidade desbussolada, desorientada, perdida.
Bem, é principalmente também por isso que talvez seja mais importante ainda que falemos de projetos, de sonhos, de crenças, de rumos.
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
FAZER O QUE SE GOSTA
Esta expressão tornou-se lugar comum, para dizer daquilo que se repete muito, a quase perder o sentido... É sempre aplicada como resposta segura às hesitações e dúvidas em relação ao futuro profissional. Simples assim: fazer o que se gosta. A fórmula hedonista leva as tintas da época contemporânea. Aliás, é tamanha a exigência que a sociedade pós-moderna faz de que se tenha sucesso, que se tenha prazer, que não se fique triste,que não se vacile, que não se perca tempo, que se ganhe dinheiro e que se ... faça o que se gosta... a que as subjetividades se vêem convocadas a se adequar, num constante esforço de reconfiguração que as conduz à incerteza e à fragilidade. Mas “tem” que se fazer o que se gosta”... Embora o “tem”, a nos indicar a obrigatoriedade, a pressão, contradiga o “gosta”.
Não vejo que seja tão simples. A escolha da profissão não é a escolha do tênis, da calça jeans ou do apartamento que se vai comprar. E mesmo nessas escolhas, aliados ao gosto, tem que estar a disponibilidade, a possibilidade,o contexto compatível , enfim, tantos aspectos para que cerquemos nossa escolha de boas chances de felicidade...
Já é bem mais complexo escolher o nosso lugar no mundo, o papel que vamos fazer, porque isso está associado com o que a gente acredita, com os nossos valores, com as nossas habilidades, a nossa personalidade, a nossa história, e, é claro, também com o que se gosta.
Não vejo que seja tão simples. A escolha da profissão não é a escolha do tênis, da calça jeans ou do apartamento que se vai comprar. E mesmo nessas escolhas, aliados ao gosto, tem que estar a disponibilidade, a possibilidade,o contexto compatível , enfim, tantos aspectos para que cerquemos nossa escolha de boas chances de felicidade...
Já é bem mais complexo escolher o nosso lugar no mundo, o papel que vamos fazer, porque isso está associado com o que a gente acredita, com os nossos valores, com as nossas habilidades, a nossa personalidade, a nossa história, e, é claro, também com o que se gosta.
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