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quinta-feira, 12 de abril de 2012

O NAVEGADOR E SUA BÚSSOLA

O indivíduo e suas aventuras são uma invenção da Modernidade. A história pessoal,
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.

segunda-feira, 12 de março de 2012

ATITUDE

Um dos objetivos de uma psicanálise ou mesmo de uma psicoterapia é que o sujeito consiga fazer seus próprios arranjos, libertando-se de suas determinações, dos destinos que sua história lhe traçou; ao invés de cumprir o que lhe havia sido escrito, ele então escreve com letra de seu punho. Cria, inventa, não sem reconhecer suas possibilidades e seus limites. Importante dizer que essa apropriação do seu próprio desejo inclui uma responsabilidade, uma missão ética.
Na vida, essa mudança de curso é essencial. Essencial é dar esse arranjo próprio ao nosso destino. Aí é que nos engajamos no viver. O encontro com nosso desejo requer algo mais para que nos humanizemos. Requer a ética da responsabilização.
O vídeo abaixo nos apresenta uma comovente cena exemplar do compromisso com a responsabilidade. Assumir o seu querer não é tudo. É preciso o engajamento na atitude.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O COMEÇO E O FIM

Dizem que o ano realmente começa quando termina o carnaval. E aí já nos deparamos com a dialética questão dos começos e dos finais. E da própria vida. Ao término de uma etapa, iniciamos outra fase, a ponto de não conseguirmos precisar, muitas vezes, onde é o começo, onde é o final. Início e fim se misturam como que a se combinar determinando sensações e emoções que também se mesclam e tornam esses momentos às vezes difíceis de definir, explicar ou entender. Seus limites são tênues. Se o começo nos enche de ansiedade e pode suscitar temores frente às surpresas do desconhecido, o final se apresenta quase como um veredito, é um real diante do qual só temos que nos render. Se o começo logicamente deve anteceder o final, não há começo que não comece após um final. A dialética do tempo, da vida... Inícios levam a términos, e términos fazem brotar inevitavelmente algo de novo, e assim, recomeçamos.
É assim que neste momento não sabemos bem se estamos terminando (as férias, o ano passado, um de nós que já não seremos...) ou se iniciando (um novo ano, um novo projeto, um de nós que nem bem conhecemos). Que estejamos, então, dispostos a encarar a verdade do final, e a emoção surpreendente do começo. É assim que a vida flui...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O CÉU É O LIMITE

No vídeo abaixo, da UNICEF, um adolescente moçambicano sonha em ser piloto. O pai o queria mineirador, mas ele lança seu olhar para o céu, e, tal como uma criança, corre pelo campo imitando o vôo de um avião. Para ele, ser piloto se traduz nesta imagem que é de uma pureza infantil, na qual ele é o próprio avião-pássaro de asas abertas, neste movimento que ele, é provável, associe com a liberdade de inventar seu próprio vôo, construindo um projeto diferenciado do destino que o pai havia lhe traçado. A imagem é inspiradora e mesmo comovente, porque nos convida a pensar em nossos próprios sonhos, esses para os quais o céu é o limite...

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O DESAFIO DO ENEM

Os estudantes que estão neste ano se preparando para concorrer a uma vaga no en-
sino superior sentem, nas duas próximas semanas, a proximidade do momento que, para muitos, é decisivo e, para outros, o primeiro dos desafios a cumprir, no caso dos que vão ainda prestar vestibular, como é o caso na UFRGS e em outras universidades do país.
Nossa época é farta em oferecer aconselhamentos, as dicas sobre como viver melhor,
como aprimorar nossas performances, nossos corpos, nossa saúde, enfim, a busca de resolver as inquietações, angústias, medos e ansiedades da vida fazem o sucesso dos chamados livros de auto-ajuda, dos programas televisivos onde famosos dão suas receitas de como proceder para ter sucesso, dos sites onde se pode procurar respostas para quase todas as perguntas. As dicas para quem vai prestar o exame do ENEM e o vestibular certamente estão bem difundidas, seja nos cursinhos, com a orientação dos professores, seja nos sites especializados ou nas matérias jornalísticas.
Posso apostar que a grande maioria deles colocará o foco no tema da ansiedade. São muitas as técnicas que os mais diversos especialistas sugerem, e algumas matérias dirigidas a estudantes serão enfáticas ao propor simplesmente: “o importante é ficar calmo na hora das provas.”
Pois meu recado aos que acompanham o meu blog e aos que são por mim acompanhados no consultório é para que reconheçam a ansiedade como parte deste processo, e da importância que estão atribuindo ao seu projeto. E para que priorizem a clareza do sentido do vestibular ou do ingresso na universidade, já que fazer as provas com esta clareza é um dos requisitos para ter sucesso. Ou seja, tão importante quanto ter estudado a matéria que cai nas provas, é ter estudado a si mesmo, e estar de posse de algumas convicções sobre o que se pretende ser e fazer nessa vida.

domingo, 21 de agosto de 2011

PROJETO DE VIDA

Gosto muito de dizer que a escolha da profissão é a escolha de um projeto de vida. Quando converso com jovens que buscam definir suas escolhas, um dos grandes desafios que temos é a visualização do sentido maior que está presente nesse processo.
A própria clínica é produtora de sentido. Seja na psicoterapia, ou na orientação vocacional, é atrás de algum sentido que estamos. Jean Paul Sartre, há cinquenta anos atrás, falava na importância de se criar “le project de la vie”. Hoje, a tendência é a dificuldade cada vez maior em acreditar em projetos para a vida inteira... Pois a vida, tal como ela é hoje, apresenta-se como um suceder de episódios, quase como se vivêssemos como nesses seriados, curtos episódios com início, meio e fim, que tem sequencia com os personagens começando a vida do zero, no novo episódio.
No mundo de hoje os estilos de vida, o que é considerado bom, as formas de vida atraentes e tentadoras, o que está na moda, o que dá dinheiro, o que não dá, tudo está em constante e acelerada mudança. A vida inteira, passamos a nos redefinir, nós, criaturas da pós-modernidade. Precisamos definir quem somos e isto nunca é uma questão acabada. Está sempre se refazendo essa tarefa. É por isso que o ‘projeto de vida ‘ parece tão desacreditado, ou pelo menos não soa com a mesma linearidade, constância, e consequente segurança de outros tempos. E também é por isso que estamos frente a uma humanidade desbussolada, desorientada, perdida.
Bem, é principalmente também por isso que talvez seja mais importante ainda que falemos de projetos, de sonhos, de crenças, de rumos.

domingo, 24 de abril de 2011

REEDIÇÃO

Ao nascimento, fomos nomeados. Carregamos pela vida o nome, o corpo dotado de certas feições que não escolhemos, nossa constituição deu-se num contexto arranjado por aqueles que nos antecederam, os fatos que fundaram nossa história tiveram outros por protagonistas. Não inventamos nada disto. Quando crianças, disseram-nos as palavras que aprendemos a repetir, deram-nos uma versão da vida, do mundo. Um ideário para crer, os livros que devíamos ler, o comportamento que devíamos adotar. Acostumamos o ouvido com a música preferida por nossos pais, o paladar com suas preferências ou regras nutricionais, nossos pés trilharam os caminhos por eles indicados.
Quando, em meio ao lento e emocionante processo pelo qual crescemos, nos vemos em outro momento, frente às possibilidades, frente às escolhas, frente a nós mesmos, à vida que desejamos construir, surge um estranhamento e uma angústia. Estranhamento com aqueles pais, meras pessoas, de carne e osso, agora. Estranhamento com o mundo, que não era bem aquele no qual acreditáramos, com este que vemos no espelho – quem será? – com tudo, enfim, que antes nos parecia habitual e conhecido.
Torna-se, neste momento, necessária uma reinvenção, uma reedição de nossa própria história, de nossa visão de mundo, de nós mesmos e de nossos projetos, que não mais aceitam fantasias. Queremos colocar os pés na realidade do mundo, escolher nosso lugar, ocupá-lo, fazer um papel no cenário da vida. E então, encorajados, saímos da casa protegida e vamos prá rua, pro mundo.

domingo, 20 de março de 2011

REFAZENDO O DESENHO

Alguém acessou meu blog pesquisando no Google através de um questionamento: “o que é mais importante na escolha de uma profissão: a vocação ou as perspectivas financeiras?” Um questionamento que traz em seu âmago uma velha dicotomia. Ou temos felicidade ou dinheiro, ou temos amor ou segurança, ou isto ou aquilo, como diria Cecília Meireles. Será que é realmente possível que, ao optarmos, como quem coloca um x na opção certa, por ganhar mais dinheiro, o acerto seja tão completo que realmente tenhamos, então, dinheiro, em detrimento de outra opção, como por exemplo a chamada realização – que seria,por outro lado, realmente o outro lado, ou seja, a mais completa e paradisíaca condição de vida feliz ?
Não, na vida, não é tão simples como o x na escolha certa. Às vezes nem isso é tão simples, já que quando estamos frente a várias escolhas, mesmo supondo que uma delas esteja certa, ficamos confusos, divididos, inseguros. Quando, então, não podemos contar com este critério a nos nortear, bem, aí fica difícil... Mas o que deve nortear nossa escolha, então? Se não há garantia absoluta de tudo certo, de tudo perfeito, de dinheiro no bolso, já que tudo isso é conquista, é construção... Que a gente faz, com as nossas atitudes, com o nosso trabalho, com a nossa criatividade, com o nosso coração. Abraçando a nossa causa, bancando nossas escolhas.
É preciso coragem para escolher. Para viver. Acho que o que deve fundamentar nossa escolha profissional é o que sabemos de nós mesmos. Isso não significa que não haja sempre mais e mais a conhecer. E mais e mais que descobriremos que não sabíamos ainda. Ou que nunca saberemos... Mas é olhando para nós mesmos, assumindo quem somos, e não, como tantas vezes acontece, buscando aquilo que gostaríamos de ser... A partir daí, nos aprontaremos para desempenhar um papel na sociedade, que cumpra sua função de nos garantir sustento, satisfação pessoal e inscrever nossa participação na mudança do mundo. E é esta inscrição no mundo que é realmente o mais importante em toda profissão.Sua mais nobre razão de ser...
Ainda com Cecília Meireles:
" Construirás os labirintos impermanentes
Que sucessivamente habitarás.
Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fadigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
..........
Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.”

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

SE SEU NOME NÃO ESTAVA NA LISTA...

No telejornal, a reportagem abordava o tema: “O que fazer quando seu nome não está na lista de aprovados do vestibular?” Os diversos especialistas, todos da esfera didática, aconselhavam que se fizesse um balanço de pontos fortes e fracos e, a partir daí, se traçasse uma estratégia. Os depoimentos de vestibulandos enfatizavam a persistência, a necessidade de mais horas de estudo e menos lazer. Para, então, de uma próxima vez, conseguir o resultado almejado. Indagado pelo repórter acerca de como saber a hora de desistir – como se “a hora de desistir fosse um momento lógico e natural em todo percurso, como se apenas a dúvida consistisse em saber o momento exato de fazê-lo – um professor salientou o quanto era importante saber se este era o “seu sonho”. Se era o “seu sonho”, então que não desistisse.
Bem, a mim me chamou a atenção que não foi mencionada a necessidade de cada um olhar para si mesmo, procurar se conhecer melhor. Será que este jovem que está reincidindo em reprovações, geralmente para o mesmo curso, não estaria precisando fazer uma parada para se questionar um pouco? Permitir-se entrar na zona de conflito neste caso é fundamental... Ainda que nos traga algumas dificuldades. O filósofo Heráclito, ao utilizar a metáfora do rio onde a água nunca é a mesma, já nos mostrava que a vida é movimento constante.
Portanto, se você não foi classificado no vestibular, faça, sim, uma auto-avaliação, onde você foi bem, onde não foi bem, mas vá além disso. Pense o que estava em questão para você naquele vestibular, pense se você já alcançou uma certa clareza sobre quem você é e o que você quer para a sua vida. Digo uma certa clareza, já que estas são as questões que permeiam nossa vida, e em cada fase dela estaremos nos perguntando e nos respondendo de novo. Nunca saberemos o suficiente... Daí porque é de se duvidar de quem não tem dúvida...

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MUITO ALÉM DO ENEM

No próximo final de semana você, que pretende conquistar uma vaga em alguma universidade brasileira, será posto à prova.E certamente está sob efeito daquela ansiedade que acompanha momentos decisivos da nossa vida. Aliás, é bom falar "nossa vida", porque parece nos assaltar, nessas ocasiões, uma sensação de que tudo se resume àquela hora, àquela circunstância, aquele fato. É sempre importante lembrar que estamos em movimento. O movimento da vida, do universo, e o nosso próprio movimento. Esse momento não se estanca aqui, e também não brotou do nada. Portanto,se você vai prestar Enem, é porque construiu as condições necessárias para chegar aqui, e se chegou aqui, você está vivendo uma fase crucial da sua história. Você está traçando o seu projeto de vida.Decidindo quem você é, quem você será, que papel será o seu nesse mundo, o que você vai fazer da sua vida.E a vida é tão rara...
Como diz Lenine.
Bem, é por isso que algo muito além do Enem está em jogo. Muito além do que você sabe, do que não sabe, dos acertos e dos erros, das notas e das classificações. Muito além de tudo que possa acontecer nos dias de prova, está a vida que você está construindo.

domingo, 5 de setembro de 2010

RECADO AOS VESTIBULANDOS

Abertas as inscrições para o vestibular da UFRGS, eis que os futuros vestibulandos vivem um primeiro momento de aproximação, pode-se dizer, da realidade para a qual se preparam. Realidade que extrapola em muito a realização de provas de conhecimento e da busca de aprovação para ingresso na universidade. É muito mais do que isso. É o real de uma vida adulta que se aproxima. Tarefas complexas precisam ser cumpridas: a escolha de um papel a desempenhar, um projeto de vida a desenvolver na sociedade. Certamente, é bem mais do que ingressar na universidade.Ou mesmo do que fazer a escolha do curso. Justamente, o que "está em curso" é a futura vida adulta em seus primeiros passos, marcados por hesitações, dúvidas, às vezes até mesmo bloqueios, ansiedade, angústia. Já que o caminho a percorrer é inevitavelmente permeado por riscos e incertezas. Afinal, como é isto, ser adulto ?
Pois meu recado aos que estão agora se inscrevendo para o vestibular é para que não esqueçam desse algo maior que está em jogo na inscrição, ou mesmo na escolha do curso. Esse algo maior que é o próprio sentido da vida.

terça-feira, 29 de junho de 2010

A PREPARAÇÃO PARA O VESTIBULAR

Já próximos do final do semestre, passados os meses de ambientação aos cursinhos
e à própria condição de pré-vestibulandos, abertas as inscrições para o Enem, parece
que o momento é de tomada de consciência, momento adequado para um primeiro recado a todos que estão se preparando para prestar vestibular.
É comum que os pré-vestibulandos sejam acometidos de crises de " não sei nada",
"parece que esqueci tudo", pensamentos que são recorrentes e que se caracterizam pela sua radicalidade.Basta que prestemos atenção às palavras:"tudo" e nada", os extremos radicais onde muitas vezes localizamos nossas ações e nossos sentimentos, que, na verdade, são sempre a expressão de nossas possibilidades reais, e, portanto, de nossos limites. Nunca fazemos nada. E nunca fazemos tudo. Mas sempre e simplesmente o que podemos. Ótimo quando podemos ficar felizes com o "tudo" que nos é possível.
Outra coisa bem importante é assumir um jeito próprio de estudar. A gente só aprende de verdade quando se envolve, quando faz daquele momento do estudo um momento proveitoso, que tem sentido. Pensar sobre as coisas, estabelecer relações, obter uma compreensão própria do que estamos estudando. Se não, ficamos robotizados frente às aulas, aos livros e cadernos.
Muitos estudantes sentem culpa ao se envolverem com as experiências habituais de suas vidas porque estariam "perdendo tempo". Sentem-se culpados se vão se divertir, se vão viajar ou namorar. Escuto muito que o namoro "atrapalha" neste período de preparação para o vestibular.
A palavra "vestibular" deriva de "vestíbulo", aquela peça introdutória nos prédios, que dá acesso ao seu interior, e que não fica nem dentro nem fora. Pois é bem assim que os vestibulandos parecem sentir-se. Sem um lugar próprio, prestes a ter acesso a ele, mas cheios de angústia por nada saberem deste futuro. Este momento, portanto, é vivido como um intervalo. Embora, é claro, não passe de uma fase da vida. Que, simplesmente, tem que ser vivida. Em vez de evitar tudo que não se refira ao estudo, mais importante é aprender a dosar-se, buscar equilíbrio e organização na rotina.
Outra questão, e talvez "a questão", é um pré-requisito para vencer essa fase. Trata-se do sentido que damos para nossas experiências. Sim, é preciso se perguntar sobre que sentido tem o vestibular, para quê estamos estudando, qual é nosso projeto. Porque é por isso que se faz vestibular. Para dar curso ao nosso projeto de vida, para assumir nosso papel no mundo. O papel que escolhemos desempenhar.

domingo, 6 de junho de 2010

CORPO E ALMA

Belos corpos ilustram abundantemente as propagandas da indústria da nutrição e da beleza. Revistas e telas de tv e computador impõem suas mensagens, adentram as subjetividades, ditam comportamentos, incitam desejos. Fabricam sujetividade em massa.
A megaindústria associada da beleza, da nutrição e da saúde coloca no mercado constantemente uma infinidade de produtos que prometem reparar, aperfeiçoar, renovar o corpo, livrá-lo das marcas do tempo e da vida. Também a indústria farmacológica promete alívio e cura a toda sorte de sintomas decorrentes do modo de vida acelerado e sujeito a tantas pressões que caracteriza a sociedade contemporânea.
Se em outros tempos a sede do ser, da própria identidade, era a alma, e sacrifícios de toda sorte eram utilizados com o nobre fim de purificá-la e salvá-la, aperfeiçoá-la, hoje, em nosso tempo, o corpo passa a se constituir no lugar de sede identitária. Contraposta à eternidade da alma está a finitude do corpo, com seu prazo de validade. E,se outrora,a salvação da alma era a essência da finalidade da vida humana, hoje vive-se a urgência de salvar o corpo, recuperá-lo todos os dias, buscar receitas de bem viver e de resgate da saúde, da beleza e do vigor do corpo.
Se, também em outros tempos, o homem, seu comportamento e suas ações
se definiam por seu lugar na sociedade, hoje, ao contrário,verifica-se a alta dos sentimentos hedonistas, do individualismo, da perda de sentido das causas sociais,uma sociedade onde cada um cuida de si, onde impera o "eu primeiro".
Se, ainda, em outros tempos, a política era o lugar do exercício da cidadania, para onde convergiam os interesses de todos, hoje ela é vista como o espaço da mentira e do roubo, enquanto a publicidade passou a ocupar esse lugar, e é assim que vêem-se atualmente os anúncios publicitários comprometidos com a cidadania, a ecologia e com os interesses gerais e comuns da sociedade. E as propagandas prometem cuidados e orientações para a vida de todos nós.
Cuidar do corpo, portanto, significa hoje o melhor meio de cuidar de si mesmo, de se afirmar, de sentir-se bem e feliz. Exigências sem fim são feitas ao corpo, coagindo-o a apresentar-se cada vez mais e obrigatóriamente saudável,jovem e capaz de produzir prazer.Cabe a cada corpo estar permanentemente preparado para ser visto, exposto, filmado, fotografado.
Se o homem contemporâneo parece tão alienado de sua ligação com a natureza e com os outros homens, se parece tão concentrado em suas próprias causas, seu próprio corpo, torna-se acima de tudo importante que busquemos o resgate desse mundo sensível, ao invés das imagens, o resgate da aproximação entre os homens, do valor da coletividade. E talvez possamos nos reconciliar com nossa essência mais humana. Com nossa alma humana.

sexta-feira, 12 de março de 2010

O EU E O OUTRO

Há sempre um espelho quando tudo se inicia para o sujeito. Ao se encontrar pela primeira vez, geralmente conduzido pela mão de um adulto, com sua imagem no espelho, a criança pequena tem um instante de júbilo, de encantamento, de surpresa, de espanto, de um misto de sensações que lhe assaltam ao ver um outro igual a si, ao ver sua própria forma tão inteira, ao ver o outro, que lhe aponta e lhe conduz, e ao ver a si mesmo como outro. Somos sempre o outro no espelho. Nasce, assim, uma imagem primeira de si próprio, de um corpo, de um outro, de um mundo, cena onde as personagens se encontram. Aí está o sujeito em sua relação com o mundo, com sua realidade. Realidade sempre permeada pelo outro. O outro que sempre somos, aquele que fomos, aquele que podemos ser, aquele que vamos nos tornar, aquele que gostaríamos de ser. Aquele que nos mira de dentro. E aquele com quem construimos um laço vivo, que nos diz quem somos, que nos ama, nos abraça, nos humaniza.
Esta metáfora do espelho foi brilhantemente utilizada por Lacan, teórico da Psicanálise que reelaborou aspectos da obra de Freud, contribuindo para lançar luz sobre a constituição psíquica do sujeito. O sujeito se constitui, portanto, na relação com o outro.
Abordo este tema para destacar este aspecto singular da espécie humana, em relação a outras espécies. O homem é o único animal que não sobreviverá sem a proteção e os cuidados de seu semelhante. E mais, nem sabe o que é ser humano. O outro terá que ensiná-lo. Pelos cuidados primeiros, pela proteção, pelas palavras, pelo amor. Essas são as condições intrínsicas da humanização.
O caminho que a humanidade vem trilhando desde o início da Modernidade, quando se instituiu a figura do indivíduo como entendemos hoje, caminho que vem se distanciando, não somente da natureza, mas também, e cada vez mais do coletivo , do bem comum, dos valores solidários, e vem marcando o território do indivíduo, da sua liberdade e dos seus interesses próprios, e que nos conduz ao momento atual, presente temeroso e pleno de interrogações em que nos encontramos. A humanidade em processo de sucateamento. O outro não mais nos comove, os laços sociais sofrem um significativo empobrecimento. O homem contemporâneo é um solitário inventor de si mesmo. Paga(quando pode) pelos seus direitos, pela sua saúde, pela sua segurança, pela sua educação.
O indivíduo urbano de classe média tem à sua disposição inúmeras possibilidades virtuais: pode trocar textos, imagens, sons, movimentar a conta bancária, comprar o que quiser, e pode fazer tudo isso isolado em sua casa, sem contato físico com outras pessoas, em seu solitário, seguro e confortável telemundo. Enquanto isto, 2/3 da população do mundo real vivem em condições sub humanas.
É preciso refletirmos sobre tudo isso. Se nos humanizamos só e tão somente na relação com o outro, que rumo é este que o humano está tomando?

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

O PRIMEIRO DIA

A intensa luz do mundo e seus ruídos estranhos invadiram o pequeno ser que, chorando seu primeiro choro, foi amparado por grandes e firmes mãos. Já não era mais aquoso o ambiente, nem morno, e muito menos confortável. A princípio, era assustador. As grandes mãos o seguram, manuseiam, os sons estranhos se misturam. E agora ele respira. Então, o conhecido som devolve-lhe sensações já conhecidas. O calor, os olhos nos olhos, a primeira conexão, o primeiro laço. O corpo materno é seu lar. O pedaço de mundo seguro,onde pode construir a confiança no mundo.
O nascimento, essa primeira viagem de separação é o primeiro trauma humano. E é também o início (ou mais ou menos isso, já que a história sempre nos precede) de uma trajetória:a vida, os laços humanos, o relacionamento com o outro. Aí estão as raízes de nossas experiências com as ligações, os laços e, por outro lado, com as separações. Como fomos recebidos, desejados ou não, que contexto permeou esse nascimento, a história de nossos pais, são fatores que determinam como passamos por tudo isso, e muito do que viremos a ser.
E haverá outros primeiros dias. Em que aquelas sensações e experiências primordiais como que darão sinais de que estão ali, dentro de nós, de que já passamos por algo parecido. Parecido e diferente.
O primeiro dia de pré-escola, por exemplo. Dependendo de como estávamos preparados para aquela primeira separação, de como nossos pais estavam preparados e souberam ou não nos autorizar com segurança e tranquilidade a viver nossa primeira experiência com o mundo sem a intermediação deles, podemos ter nos saído melhor ou tido alguma dificuldade.
O primeiro dia no cursinho. Já não estamos entre nossos colegas conhecidos, não somos mais aqueles despretenciosos alunos de segundo grau, e parece que tampouco sabemos muito quem somos agora.
E assim o primeiro dia de aula na universidade. O estranhamento, as descobertas, as inseguranças, as dúvidas, e a alegria. Não sabemos como vão se passar as coisas. O futuro sempre a provocar e interrogar o espírito humano. O que sabemos, e é isso que nos contenta, é que estamos amadurecendo, estamos inventando nosso próprio caminho.