domingo, 12 de agosto de 2012

AQUI É O MEU LUGAR

Fui ao cinema para ver Woody Allen, mas por um engano de horário o filme que passava era ' Aqui é o meu Lugar', do diretor italiano Paolo Sorrentino. Tomei o acontecido como um indício de que ali poderia ser o meu lugar... Logo nas primeiras cenas cheguei a duvidar, tal o estranhamento que me causou a imagem de Sean Penn, diferente de todas as suas atuações. Uma máscara. Maquiagem carregadíssima, lábios pintados, cabelão armado, roupas e botas pretas. O personagem, um roqueiro aposentado que, apesar disso, carregava sua figura intocada pela passagem do tempo. Algo de uma indefinição o marcava. A voz, de um timbre não qualificável, não era masculina. Nem mesmo feminina. O andar, lento e balançado, fazia o personagem parecer movido em câmera lenta. O roqueiro brilhantemente interpretado por Sean Penn apresenta-se logo de início como um depressivo, em sua fala lenta e monótona, sua carência de esperança, de atitudes, de desejo. Seu quase apagamento, salvo pela relação com a mulher, que trata de sublinhar, a todo tempo, as possibilidades de vida e de relação com o desejo. Linda trajetória da personagem, que, ao se defrontar com a morte do pai, com quem não se relacionava desde a juventude,toma para si mesmo o desejo do pai, assumindo assim sua identificação com ele e, através de uma verdadeira viajem, fazer a transição para o mundo adulto. Numa cena linda do filme, ele diz que um dia se tem que escolher um momento da vida para não se ter medo. É disto que o filme nos fala. Da coragem de criar um itinerário próprio, de assumir um destino próprio,de assumir-se além da máscara.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A PRINCIPAL CARACTERÍSTICA

Um vídeo sobre informação profissional,com o título "Qual a principal característica que um jornalista deve ter?". Ao assistí-lo, não me surpreendi com a diversidade de respostas dos vários profissionais entrevistados, apesar da promessa indicada no título apontar para a distinção de uma única e principal característica... Fiquei pensando em como nossa tendência simplificadora e carente de respostas que nos apaziguem a angústia frente ao incerto, ao que não conhecemos ou não sabemos como será... Sim, porque por mais que estejamos esclarecidos acerca de uma futura profissão, não há o que nos salve de viver a insegurança frente ao futuro, o medo de "errar", não existe meio de evitar essa condição humana. Viver tem, entre outras conotações, esta de nos arremessar ao incerto, ao duvidoso, ao desconhecido. Inclusive de nós mesmos, já que estamos sempre em movimento, nos transformando, aprendendo,nos surpreendendo.Ainda bem, pode-se dizer... É bem por isso que não existe nem pode existir a tal característica principal de um determinado profissional, seja qual for a profissão. Ainda bem, pode-se dizer, porque é assim que podemos contar, numa mesma área profissional, com uma diversidade de estilos, diferentes técnicas, conduções diferentes, abordagens diversas. Um mesmo profissional, inclusive, em momentos diferentes de sua carreira, terá desempenhos diferentes, e imprimirá à sua técnica o resultado de sua vivência, de seu aprendizado e de suas condições naquele momento. Assim como podemos salientar em cada profissão, tantas características importantes, ou mesmo alguma que a princípio não estivesse aí listada, que, dependendo de como fosse explorada pelo profissional, pudesse se converter numa importante característica... Mais importante do que salientar uma qualidade principal para o desempenho de um papel profissional, me parece, sem dúvida, pensar sobre o que nos leva à identificação com este papel. E sobre a importância de, ao invés de seguir clichês ou lugares-comuns, de nos abrirmos para as possibilidades sempre ricas de vivenciar o exercício profissional de um modo singular, que tem a nossa cara, o nosso jeito.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

ESCOLHA, DÚVIDA E CERTEZA

A possibilidade da escolha é justamente um marco no amadurecimento de todos nós. Desde crianças, a promessa de ter acesso à liberdade de escolher nos era feita. Já que nenhum de nós escolheu nascer, escolheu o próprio nome, em que condições viria ao mundo, as próprias bases ideológicas que embasariam nossa educação, é claro que não escolhemos. Estivemos, podemos dizer, submetidos, determinados por uma conjuntura que nos antecedeu e que nos deu origem. Ansiamos por fazer nossas próprias opções. E, na infância, imaginamos que a possibilidade de escolher é uma chave que nos conduz a um mundo de liberdade e sucesso. Quando, então, nos deparamos com as primeiras, experimentamos também a incerteza, a angústia, o receio de perder, ou mesmo o sentimento de perda que as acompanha, inevitavelmente. Pois a opção que não fizemos, esta fica perdida. É então que nos vemos aprendendo que a escolha diz de nossa condição de sujeitos. Estes, que ganham e perdem. Estes que anseiam pelas certezas e são tão cheios de dúvidas. É com isto que temos que nos ver. Fantasiamos, muitas vezes, que a escolha nos conduzirá à certeza. Como negar que este seria o ideal? Que pudéssemos nos cercar de certezas. Já Descartes preocupava-se com esta questão. E para resolvê-la, obrigou-se a lançar mão de Deus. Pois do que podemos nós, humanos, estar certos de verdade? A certeza, a verdade absoluta, pertencem a um terreno ideal. Nós, seres humanos, desde Freud, descobrimos que somos divididos entre consciência e inconsciência. Este saber absoluto, completo, que tem a ver com a certeza, não podemos alcançá-lo. É com isto que temos que nos ver, quando escolhemos. Com esta liberdade que é a que podemos ter. Escolher assumindo os riscos, as perdas, bem como os ganhos e alegrias que venham com nossas escolhas.

terça-feira, 29 de maio de 2012

VAZIO DE SENTIDO

Alguém me procura, dia desses, pedindo-me que indique a seu filho, que se prepara para concursos, um livro sobre competição. Fiquei um tanto surpresa com a solicitação, prometi pensar no assunto e dar-lhe uma resposta. Estudar para concurso. Que concurso? Muita gente hoje estuda para concurso, e é simplesmente isso. Algo assim um tanto vago, que é bem diferente de estar se preparando para um determinado processo seletivo, o que significa ter em mente um certo objetivo, uma meta com a qual a pessoa se identifique, algo que prometa ao menos fazer algum sentido. Vejo que muitas dessas pessoas encontram-se como numa espécie de limbo, um vazio de significação que as impele a agarrarem-se nesta meta, a preparação para concursos. Assim, algo que é dito de forma bem genérica, sem delimitação alguma: estudar para concurso. Certamente há um vazio a preencher. Vazio de sentido, talvez. Antes da Modernidade o sentido do viver estava pré-determinado, o destino dos homens era dado por herança. Com a invenção do indivíduo e da liberdade, os pós-modernos são seres criadores do próprio destino, o estilo e as metas pessoais são constantemente escolhidos, e a identidade, longe de corresponder a uma noção estável, torna-se reciclável. É de se compreender a angústia que possa trazer esta responsabilidade de se recriar o tempo todo, de lidar com perspectivas cada vez menos previsíveis. O rapaz em questão intuiu que era preciso aperfeiçoar-se na arte de competir. Para ser aprovado, selecionado. Parece que sua preparação embasa-se no objetivo de alcançar ou ultrapassar o outro. Este outro que, hoje, parece ser ameaçador. Fiquei pensando em tudo isso. Talvez por nunca ter nutrido simpatia ou mesmo interesse pela competição, o que certamente não me deixou impune a certas experiências menos felizes, eu diria – fato que a pessoa que me fez a solicitação, que parecia tão animada por referir-se à competição, afinal tão intrínsica, é verdade, ao mundo em que vivemos, capitalista e globalizado, certamente ignorava por completo. O que engatilhou todas essas reflexões foi a frase: Ele estuda pra concurso. Trouxe-me uma sensação de que este rapaz estuda assim sem norte, sem direção, e que talvez seja assim mesmo que ele se sinta. Foi buscar nos livros sobre competição a segurança que só poderia obter olhando mais para si mesmo...

domingo, 29 de abril de 2012

quinta-feira, 12 de abril de 2012

O NAVEGADOR E SUA BÚSSOLA

O indivíduo e suas aventuras são uma invenção da Modernidade. A história pessoal,
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

sábado, 17 de março de 2012

segunda-feira, 12 de março de 2012

ATITUDE

Um dos objetivos de uma psicanálise ou mesmo de uma psicoterapia é que o sujeito consiga fazer seus próprios arranjos, libertando-se de suas determinações, dos destinos que sua história lhe traçou; ao invés de cumprir o que lhe havia sido escrito, ele então escreve com letra de seu punho. Cria, inventa, não sem reconhecer suas possibilidades e seus limites. Importante dizer que essa apropriação do seu próprio desejo inclui uma responsabilidade, uma missão ética.
Na vida, essa mudança de curso é essencial. Essencial é dar esse arranjo próprio ao nosso destino. Aí é que nos engajamos no viver. O encontro com nosso desejo requer algo mais para que nos humanizemos. Requer a ética da responsabilização.
O vídeo abaixo nos apresenta uma comovente cena exemplar do compromisso com a responsabilidade. Assumir o seu querer não é tudo. É preciso o engajamento na atitude.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

O COMEÇO E O FIM

Dizem que o ano realmente começa quando termina o carnaval. E aí já nos deparamos com a dialética questão dos começos e dos finais. E da própria vida. Ao término de uma etapa, iniciamos outra fase, a ponto de não conseguirmos precisar, muitas vezes, onde é o começo, onde é o final. Início e fim se misturam como que a se combinar determinando sensações e emoções que também se mesclam e tornam esses momentos às vezes difíceis de definir, explicar ou entender. Seus limites são tênues. Se o começo nos enche de ansiedade e pode suscitar temores frente às surpresas do desconhecido, o final se apresenta quase como um veredito, é um real diante do qual só temos que nos render. Se o começo logicamente deve anteceder o final, não há começo que não comece após um final. A dialética do tempo, da vida... Inícios levam a términos, e términos fazem brotar inevitavelmente algo de novo, e assim, recomeçamos.
É assim que neste momento não sabemos bem se estamos terminando (as férias, o ano passado, um de nós que já não seremos...) ou se iniciando (um novo ano, um novo projeto, um de nós que nem bem conhecemos). Que estejamos, então, dispostos a encarar a verdade do final, e a emoção surpreendente do começo. É assim que a vida flui...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O CÉU É O LIMITE

No vídeo abaixo, da UNICEF, um adolescente moçambicano sonha em ser piloto. O pai o queria mineirador, mas ele lança seu olhar para o céu, e, tal como uma criança, corre pelo campo imitando o vôo de um avião. Para ele, ser piloto se traduz nesta imagem que é de uma pureza infantil, na qual ele é o próprio avião-pássaro de asas abertas, neste movimento que ele, é provável, associe com a liberdade de inventar seu próprio vôo, construindo um projeto diferenciado do destino que o pai havia lhe traçado. A imagem é inspiradora e mesmo comovente, porque nos convida a pensar em nossos próprios sonhos, esses para os quais o céu é o limite...

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

ESCOLHAS FELIZES

Entrei na locadora disposta a escolher alguns filmes. Sem a listinha. Sim, importante esta listinha, fruto da minha pesquisa prévia, com os filmes premiados ou destacados nas críticas especializadas. Passo os olhos pelo grande acervo classificado em gêneros.
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UM NATAL E ANO NOVO INVENTIVOS

Os finais de ano nos impelem à repetição. Ou à invenção. Ao revivermos as tradições de Natal e Ano Novo, encontramo-nos fazendo mais uma vez tantas coisas que sempre fazemos nesta época, que temos que fazer, que alguém espera que façamos... A compra dos presentes, dos panetones, da decoração natalina, dos cartões que trazem palavras tão conhecidas, os votos renovados e replicados de felicidade.
E a felicidade? Nós, humanos, vivemos uma eterna contradição no que diz respeito à felicidade. Pelo simples fato de que nos falta sempre algo, algo que não conseguimos, algo que não dissemos, algo que não podemos, algo sempre nos faltará... Por isso somos seres desejantes. E que, fatalmente, temos que nos ver com essa falta...
Pois a felicidade talvez tenha mais relação com nos havermos com nossa incompletude do que com uma busca de supri-la... Ser feliz parece que tem a ver com esta mágica que rompe com a repetição, com a invenção de um jeito sempre incompleto de fazer algo interessante com essa nossa condição. Onde a falta, a imperfeição, sempre farão sua marca...
Ao desejar aos meus caros leitores um Feliz Natal e felicidade em 2012, estou a fazer-lhes votos de muita capacidade de fazer mágicas, de inventar, ao invés de repetir. E, necessariamente, de se responsabilizarem, arcarem com suas invenções...

sábado, 3 de dezembro de 2011

VIDA PRÓPRIA

Há um momento em que as mãos se desprendem dos braços de quem as ampara, e passos cambaleantes e inaugurais então acontecem.
Um dia, diante do espelho, a percepção da própria unidade, da diferença. Um corpo, outro corpo...
A descoberta da palavra não, o prazer de contrariar uma expectativa, de simplesmente desobedecer... Existe o sim, existe o não. Existe o um e o outro...
Também a ida para a praia, com a família, no verão. Um dia, não foi. Preferiu ficar. Mas é que sempre haviam feito esse passeio juntos... Pois hoje ficou, junto consigo mesmo...
As roupas preferidas da mãe foram desprezadas, a opinião do pai, contestada. A foto do porta-retrato, trocada.
Há sempre o dia em que se quer encontrar o próprio tom, a própria trilha, a própria zona de conforto... Nesse dia, o familiar se torna estranho, o estranho parece, então, familiar.
Não é indolor, todavia, esse processo. Há uma saudade que fica de fundo, remetendo ao que se foi, à cena antiga... E então segue-se em frente, e vão-se fazendo as descobertas, as aventuras, os bons momentos e as grandes emoções. A vida própria vai tomando seu jeito.
Em cada um desses pedaços de vida é decisivo o ato da escolha, que faz germinar o sujeito em cada gesto, em cada marca de singularidade.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

OS SEGREDOS DO OLHAR

No filme argentino “O Segredo dos seus Olhos”, existe uma impressionante combinação de beleza e violência, passado e presente, uma boa história e uma belíssimo trabalho dos atores. O protagonista, um promotor aposentado, decide escrever um livro sobre um crime brutal ocorrido em seu passado profissional. O personagem revê, durante a trama, a sua compreensão do caso, a sua relação com a ex-chefe, pela qual foi sempre apaixonado, e sua própria atitude perante a vida e perante o amor. A intensidade do olhar permeia as cenas do início ao fim, seja na cena do crime, nos encontros dos dois protagonistas, que acontecem em dois momentos de vida diferentes, ou mesmo na pista para a descoberta do assassino, que se revela pelo olhar. Por fim, a revisão do caso propicia também um novo olhar sobre a vida.
Se nos construímos como sujeitos nos laços com os outros, o olhar tem um caráter essencial nessa construção. O bebê recém chegado ao mundo, ao viver a primeira experiência de separação, reencontra-se com a mãe num enlace de olhares. Olhos nos olhos, tem suas primeiras sensações sobre a vida, e recebe, através desse olhar, um “recado”, uma mensagem que a mãe lhe transmite. É também pelo olhar do outro que aprendemos a nos ver. Esta imagem que o outro nos devolve com seu olhar vai nos dizendo quem somos. Na adolescência, buscamos outros olhares , desde outros que não nossos pais a nos dizerem quem somos, até a visão outra que precisamos alcançar do mundo, numa perspectiva própria.
O personagem do filme empreende um doloroso mergulho em seu passado, perseguindo a elaboração de situações que ainda careciam de ser significadas, e renova-se libertando-se de seus bloqueios. Bonita a cena em que ele, ao olhar a palavra que havia rabiscado num pedaço de papel, à cabeceira da cama, palavra lida já tantas vezes, sorri e lhe acrescenta uma letra, transformando “temo” em “te amo”. Ele sai, então, decidido a viver seu amor. Ela lhe diz:" Vai ser complicado." "Não me importo", diz ele.
É sempre tempo para olhar com outros olhos, buscar uma diferente visada, ou diferentes campos para alcançar com nossa visão.

terça-feira, 1 de novembro de 2011



A instigante obra do surrealista René Magritte, que nos remete ao sonho e à utopia

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O SUJEITO E SUA CONTRADIÇÃO

O discurso da Modernidade é o discurso das liberdades fundamentais do ser humano,
e a Modernidade é a própria inauguração da idéia liberal, da escolha, da individualidade.
A liberdade de ser quem eu quero ser, fazer minha própria escolha, viver a vida do meu jeito, construir minha própria identidade... Em nosso mundo chamado pós-moderno, vivemos o auge da reivindicação das liberdades. Somos todos livres, aptos a fazer nossas escolhas...
Lacan, psicanalista francês que, na década de 50 reformulou a psicanálise fundada por Freud, refere-se a este discurso de liberdade como um delírio. Portanto, além de livres, segundo Lacan somos também delirantes... E esta idéia lacaniana se fundamenta na noção mais importante da psicanálise, aquela que lhe deu origem e que escandalizou a sociedade vitoriana da época de Freud: a noção do inconsciente. O gênio de Freud desbancou toda essa autonomia, ao revelar-nos divididos entre, por um lado, este que facilmente reconhecemos e assumimos como nós mesmos: o nosso eu, e, por outro lado, esse obscuro e estranho que mora em nós, o inconsciente. Dele nada sabemos.
Esta é a contradição do sujeito humano. Este que se pretende dono de si, livre para fazer suas escolhas, e este que tantas vezes não tem escolha, que se vê tantas vezes refém de si mesmo.