terça-feira, 29 de maio de 2012
VAZIO DE SENTIDO
Alguém me procura, dia desses, pedindo-me que indique a seu filho, que se prepara para concursos, um livro sobre competição. Fiquei um tanto surpresa com a solicitação,
prometi pensar no assunto e dar-lhe uma resposta. Estudar para concurso. Que concurso? Muita gente hoje estuda para concurso, e é simplesmente isso. Algo assim um tanto vago, que é bem diferente de estar se preparando para um determinado processo seletivo, o que significa ter em mente um certo objetivo, uma meta com a qual a pessoa se identifique, algo que prometa ao menos fazer algum sentido. Vejo que muitas dessas pessoas encontram-se como numa espécie de limbo, um vazio de significação que as impele a agarrarem-se nesta meta, a preparação para concursos. Assim, algo que é dito de forma bem genérica, sem delimitação alguma: estudar para concurso. Certamente há um vazio a preencher. Vazio de sentido, talvez.
Antes da Modernidade o sentido do viver estava pré-determinado, o destino dos homens era dado por herança. Com a invenção do indivíduo e da liberdade, os pós-modernos são seres criadores do próprio destino, o estilo e as metas pessoais são constantemente escolhidos, e a identidade, longe de corresponder a uma noção estável, torna-se reciclável. É de se compreender a angústia que possa trazer esta responsabilidade de se recriar o tempo todo, de lidar com perspectivas cada vez menos previsíveis.
O rapaz em questão intuiu que era preciso aperfeiçoar-se na arte de competir. Para ser aprovado, selecionado. Parece que sua preparação embasa-se no objetivo de alcançar ou ultrapassar o outro. Este outro que, hoje, parece ser ameaçador.
Fiquei pensando em tudo isso. Talvez por nunca ter nutrido simpatia ou mesmo interesse pela competição, o que certamente não me deixou impune a certas experiências menos felizes, eu diria – fato que a pessoa que me fez a solicitação, que parecia tão animada por referir-se à competição, afinal tão intrínsica, é verdade, ao mundo em que vivemos, capitalista e globalizado, certamente ignorava por completo.
O que engatilhou todas essas reflexões foi a frase: Ele estuda pra concurso. Trouxe-me uma sensação de que este rapaz estuda assim sem norte, sem direção, e que talvez seja assim mesmo que ele se sinta. Foi buscar nos livros sobre competição a segurança que só poderia obter olhando mais para si mesmo...
domingo, 29 de abril de 2012
quinta-feira, 12 de abril de 2012
O NAVEGADOR E SUA BÚSSOLA
O indivíduo e suas aventuras são uma invenção da Modernidade. A história pessoal,
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.
o destino individual, as escolhas e a liberdade para escolher, a montagem própria da vida, as singularidades e todas essas premissas ditas básicas do way of life modernista e liberal. Toda esta essência da era moderna vem avançando, no tempo, em velocidade assustadora, de forma que o que vivemos hoje, não sabemos bem como nomear ou significar. Há os que dizem que somos pós-modernos. O que sabemos é que nos distanciamos de tal forma das referências tradicionais que baseavam as sociedades pré-modernas, que o resultado é a desorientação e o desamparo. Navegamos sem bússola.
Talvez por isso busque-se tanta orientação, aconselhamento, no mundo de hoje. É o que se oferece por todo lado. Artistas de TV aconselham, locutores de rádio, jornais e revistas, profissionais de todas as áreas, o facebook, a novela, o livro de auto-ajuda (existe auto-ajuda?), a humanidade desbussolada precisa avistar um rumo.
Os testes, que avaliam e medem os mais variados fatores de comportamento, “você é competitivo?” “você está estressado?” “descubra seu estilo”, “trace seu perfil profissional”, parecem ser uma via de preencher este vazio de convicções, e a própria dificuldade que hoje as pessoas tem para elaborar qualquer definição, quanto mais em relação aos rumos a tomar, já que os roteiros se diversificam e se modificam com tanta rapidez...
A escolha profissional acontece nesse contexto difícil. A Orientação Vocacional bem conduzida é um processo através do qual o orientando obtém uma noção mais clara a respeito de sua identidade, reconhece seus valores, interesses e aptidões, relacionando esse conhecimento à realidade do mundo onde ele vai aplicá-lo. Sentindo-se pronto,assim, para ocupar seu lugar na sociedade. Tal como os navegadores que outrora fortaleceram-se e encorajaram-se para enfrentar os perigos dos mares porque levavam consigo suas bússolas.
quinta-feira, 5 de abril de 2012
sábado, 17 de março de 2012
segunda-feira, 12 de março de 2012
ATITUDE
Um dos objetivos de uma psicanálise ou mesmo de uma psicoterapia é que o sujeito consiga fazer seus próprios arranjos, libertando-se de suas determinações, dos destinos que sua história lhe traçou; ao invés de cumprir o que lhe havia sido escrito, ele então escreve com letra de seu punho. Cria, inventa, não sem reconhecer suas possibilidades e seus limites. Importante dizer que essa apropriação do seu próprio desejo inclui uma responsabilidade, uma missão ética.
Na vida, essa mudança de curso é essencial. Essencial é dar esse arranjo próprio ao nosso destino. Aí é que nos engajamos no viver. O encontro com nosso desejo requer algo mais para que nos humanizemos. Requer a ética da responsabilização.
O vídeo abaixo nos apresenta uma comovente cena exemplar do compromisso com a responsabilidade. Assumir o seu querer não é tudo. É preciso o engajamento na atitude.
Na vida, essa mudança de curso é essencial. Essencial é dar esse arranjo próprio ao nosso destino. Aí é que nos engajamos no viver. O encontro com nosso desejo requer algo mais para que nos humanizemos. Requer a ética da responsabilização.
O vídeo abaixo nos apresenta uma comovente cena exemplar do compromisso com a responsabilidade. Assumir o seu querer não é tudo. É preciso o engajamento na atitude.
domingo, 11 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
sábado, 25 de fevereiro de 2012
O COMEÇO E O FIM
Dizem que o ano realmente começa quando termina o carnaval. E aí já nos deparamos com a dialética questão dos começos e dos finais. E da própria vida. Ao término de uma etapa, iniciamos outra fase, a ponto de não conseguirmos precisar, muitas vezes, onde é o começo, onde é o final. Início e fim se misturam como que a se combinar determinando sensações e emoções que também se mesclam e tornam esses momentos às vezes difíceis de definir, explicar ou entender. Seus limites são tênues. Se o começo nos enche de ansiedade e pode suscitar temores frente às surpresas do desconhecido, o final se apresenta quase como um veredito, é um real diante do qual só temos que nos render. Se o começo logicamente deve anteceder o final, não há começo que não comece após um final. A dialética do tempo, da vida... Inícios levam a términos, e términos fazem brotar inevitavelmente algo de novo, e assim, recomeçamos.
É assim que neste momento não sabemos bem se estamos terminando (as férias, o ano passado, um de nós que já não seremos...) ou se iniciando (um novo ano, um novo projeto, um de nós que nem bem conhecemos). Que estejamos, então, dispostos a encarar a verdade do final, e a emoção surpreendente do começo. É assim que a vida flui...
É assim que neste momento não sabemos bem se estamos terminando (as férias, o ano passado, um de nós que já não seremos...) ou se iniciando (um novo ano, um novo projeto, um de nós que nem bem conhecemos). Que estejamos, então, dispostos a encarar a verdade do final, e a emoção surpreendente do começo. É assim que a vida flui...
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
O CÉU É O LIMITE
No vídeo abaixo, da UNICEF, um adolescente moçambicano sonha em ser piloto. O pai o queria mineirador, mas ele lança seu olhar para o céu, e, tal como uma criança, corre pelo campo imitando o vôo de um avião. Para ele, ser piloto se traduz nesta imagem que é de uma pureza infantil, na qual ele é o próprio avião-pássaro de asas abertas, neste movimento que ele, é provável, associe com a liberdade de inventar seu próprio vôo, construindo um projeto diferenciado do destino que o pai havia lhe traçado. A imagem é inspiradora e mesmo comovente, porque nos convida a pensar em nossos próprios sonhos, esses para os quais o céu é o limite...
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
domingo, 29 de janeiro de 2012
ESCOLHAS FELIZES
Entrei na locadora disposta a escolher alguns filmes. Sem a listinha. Sim, importante esta listinha, fruto da minha pesquisa prévia, com os filmes premiados ou destacados nas críticas especializadas. Passo os olhos pelo grande acervo classificado em gêneros.
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...
A busca exigirá paciência e não me eximirá do risco já bem conhecido de ser iludida pelas primeiras impressões, ou por indícios como premiações, elenco, direção, o título sugestivo, ou a opinião do jovem funcionário que assiste filmes para orientar os clientes: “ – Este é o tipo de filme em que o cara dá um giro de 360° na vida”, me diz ele... Fico pensando que o personagem do filme fez um giro inútil... Ficou no mesmo lugar... Em seguida ele me fala de um ator que está despontando em Hollywood que está estrelando vários filmes. “Este é um tipo auto-ajuda...” Não posso dizer que eu tenha alguma simpatia pela auto-ajuda, e com esta última observação do meu esforçado e simpático ajudante, ao vê-lo ocupado com algumas outras pessoas, decido me independizar e seguir minhas próprias intuições. Basear-me em meu conhecimento, minhas experiências, meus gostos e meus interesses. Seleciono, então, um filme de cada um dos três gêneros que são meus favoritos e saio feliz com a escolha. Ao assistir os filmes, depois, tive parcialmente confirmada minha intuição. Um deles, a comédia, não me agradou. Ao fazer uma escolha, tornamo-nos responsáveis por seus desdobramentos. A questão é que escolher sempre é um processo permeado por dúvidas, incertezas e receios. Fazemos melhor quando valorizamos menos as listas, as opiniões alheias, e mais, muito mais, nossa intuição, nosso desejo, nossa bagagem histórica, nossos valores, interesses e gostos. E se a identidade é sempre uma questão pensada, repensada, definida e redefinida, que, ao longo da vida, nunca terá um fechamento definitivo ou uma conclusão, levar em conta quem a gente é parece ser mesmo o mais importante para se fazer um escolha feliz...
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
UM NATAL E ANO NOVO INVENTIVOS
Os finais de ano nos impelem à repetição. Ou à invenção. Ao revivermos as tradições de Natal e Ano Novo, encontramo-nos fazendo mais uma vez tantas coisas que sempre fazemos nesta época, que temos que fazer, que alguém espera que façamos... A compra dos presentes, dos panetones, da decoração natalina, dos cartões que trazem palavras tão conhecidas, os votos renovados e replicados de felicidade.
E a felicidade? Nós, humanos, vivemos uma eterna contradição no que diz respeito à felicidade. Pelo simples fato de que nos falta sempre algo, algo que não conseguimos, algo que não dissemos, algo que não podemos, algo sempre nos faltará... Por isso somos seres desejantes. E que, fatalmente, temos que nos ver com essa falta...
Pois a felicidade talvez tenha mais relação com nos havermos com nossa incompletude do que com uma busca de supri-la... Ser feliz parece que tem a ver com esta mágica que rompe com a repetição, com a invenção de um jeito sempre incompleto de fazer algo interessante com essa nossa condição. Onde a falta, a imperfeição, sempre farão sua marca...
Ao desejar aos meus caros leitores um Feliz Natal e felicidade em 2012, estou a fazer-lhes votos de muita capacidade de fazer mágicas, de inventar, ao invés de repetir. E, necessariamente, de se responsabilizarem, arcarem com suas invenções...
E a felicidade? Nós, humanos, vivemos uma eterna contradição no que diz respeito à felicidade. Pelo simples fato de que nos falta sempre algo, algo que não conseguimos, algo que não dissemos, algo que não podemos, algo sempre nos faltará... Por isso somos seres desejantes. E que, fatalmente, temos que nos ver com essa falta...
Pois a felicidade talvez tenha mais relação com nos havermos com nossa incompletude do que com uma busca de supri-la... Ser feliz parece que tem a ver com esta mágica que rompe com a repetição, com a invenção de um jeito sempre incompleto de fazer algo interessante com essa nossa condição. Onde a falta, a imperfeição, sempre farão sua marca...
Ao desejar aos meus caros leitores um Feliz Natal e felicidade em 2012, estou a fazer-lhes votos de muita capacidade de fazer mágicas, de inventar, ao invés de repetir. E, necessariamente, de se responsabilizarem, arcarem com suas invenções...
sábado, 3 de dezembro de 2011
VIDA PRÓPRIA
Há um momento em que as mãos se desprendem dos braços de quem as ampara, e passos cambaleantes e inaugurais então acontecem.
Um dia, diante do espelho, a percepção da própria unidade, da diferença. Um corpo, outro corpo...
A descoberta da palavra não, o prazer de contrariar uma expectativa, de simplesmente desobedecer... Existe o sim, existe o não. Existe o um e o outro...
Também a ida para a praia, com a família, no verão. Um dia, não foi. Preferiu ficar. Mas é que sempre haviam feito esse passeio juntos... Pois hoje ficou, junto consigo mesmo...
As roupas preferidas da mãe foram desprezadas, a opinião do pai, contestada. A foto do porta-retrato, trocada.
Há sempre o dia em que se quer encontrar o próprio tom, a própria trilha, a própria zona de conforto... Nesse dia, o familiar se torna estranho, o estranho parece, então, familiar.
Não é indolor, todavia, esse processo. Há uma saudade que fica de fundo, remetendo ao que se foi, à cena antiga... E então segue-se em frente, e vão-se fazendo as descobertas, as aventuras, os bons momentos e as grandes emoções. A vida própria vai tomando seu jeito.
Em cada um desses pedaços de vida é decisivo o ato da escolha, que faz germinar o sujeito em cada gesto, em cada marca de singularidade.
Um dia, diante do espelho, a percepção da própria unidade, da diferença. Um corpo, outro corpo...
A descoberta da palavra não, o prazer de contrariar uma expectativa, de simplesmente desobedecer... Existe o sim, existe o não. Existe o um e o outro...
Também a ida para a praia, com a família, no verão. Um dia, não foi. Preferiu ficar. Mas é que sempre haviam feito esse passeio juntos... Pois hoje ficou, junto consigo mesmo...
As roupas preferidas da mãe foram desprezadas, a opinião do pai, contestada. A foto do porta-retrato, trocada.
Há sempre o dia em que se quer encontrar o próprio tom, a própria trilha, a própria zona de conforto... Nesse dia, o familiar se torna estranho, o estranho parece, então, familiar.
Não é indolor, todavia, esse processo. Há uma saudade que fica de fundo, remetendo ao que se foi, à cena antiga... E então segue-se em frente, e vão-se fazendo as descobertas, as aventuras, os bons momentos e as grandes emoções. A vida própria vai tomando seu jeito.
Em cada um desses pedaços de vida é decisivo o ato da escolha, que faz germinar o sujeito em cada gesto, em cada marca de singularidade.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
OS SEGREDOS DO OLHAR
No filme argentino “O Segredo dos seus Olhos”, existe uma impressionante combinação de beleza e violência, passado e presente, uma boa história e uma belíssimo trabalho dos atores. O protagonista, um promotor aposentado, decide escrever um livro sobre um crime brutal ocorrido em seu passado profissional. O personagem revê, durante a trama, a sua compreensão do caso, a sua relação com a ex-chefe, pela qual foi sempre apaixonado, e sua própria atitude perante a vida e perante o amor. A intensidade do olhar permeia as cenas do início ao fim, seja na cena do crime, nos encontros dos dois protagonistas, que acontecem em dois momentos de vida diferentes, ou mesmo na pista para a descoberta do assassino, que se revela pelo olhar. Por fim, a revisão do caso propicia também um novo olhar sobre a vida.
Se nos construímos como sujeitos nos laços com os outros, o olhar tem um caráter essencial nessa construção. O bebê recém chegado ao mundo, ao viver a primeira experiência de separação, reencontra-se com a mãe num enlace de olhares. Olhos nos olhos, tem suas primeiras sensações sobre a vida, e recebe, através desse olhar, um “recado”, uma mensagem que a mãe lhe transmite. É também pelo olhar do outro que aprendemos a nos ver. Esta imagem que o outro nos devolve com seu olhar vai nos dizendo quem somos. Na adolescência, buscamos outros olhares , desde outros que não nossos pais a nos dizerem quem somos, até a visão outra que precisamos alcançar do mundo, numa perspectiva própria.
O personagem do filme empreende um doloroso mergulho em seu passado, perseguindo a elaboração de situações que ainda careciam de ser significadas, e renova-se libertando-se de seus bloqueios. Bonita a cena em que ele, ao olhar a palavra que havia rabiscado num pedaço de papel, à cabeceira da cama, palavra lida já tantas vezes, sorri e lhe acrescenta uma letra, transformando “temo” em “te amo”. Ele sai, então, decidido a viver seu amor. Ela lhe diz:" Vai ser complicado." "Não me importo", diz ele.
É sempre tempo para olhar com outros olhos, buscar uma diferente visada, ou diferentes campos para alcançar com nossa visão.
Se nos construímos como sujeitos nos laços com os outros, o olhar tem um caráter essencial nessa construção. O bebê recém chegado ao mundo, ao viver a primeira experiência de separação, reencontra-se com a mãe num enlace de olhares. Olhos nos olhos, tem suas primeiras sensações sobre a vida, e recebe, através desse olhar, um “recado”, uma mensagem que a mãe lhe transmite. É também pelo olhar do outro que aprendemos a nos ver. Esta imagem que o outro nos devolve com seu olhar vai nos dizendo quem somos. Na adolescência, buscamos outros olhares , desde outros que não nossos pais a nos dizerem quem somos, até a visão outra que precisamos alcançar do mundo, numa perspectiva própria.
O personagem do filme empreende um doloroso mergulho em seu passado, perseguindo a elaboração de situações que ainda careciam de ser significadas, e renova-se libertando-se de seus bloqueios. Bonita a cena em que ele, ao olhar a palavra que havia rabiscado num pedaço de papel, à cabeceira da cama, palavra lida já tantas vezes, sorri e lhe acrescenta uma letra, transformando “temo” em “te amo”. Ele sai, então, decidido a viver seu amor. Ela lhe diz:" Vai ser complicado." "Não me importo", diz ele.
É sempre tempo para olhar com outros olhos, buscar uma diferente visada, ou diferentes campos para alcançar com nossa visão.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
O SUJEITO E SUA CONTRADIÇÃO
O discurso da Modernidade é o discurso das liberdades fundamentais do ser humano,
e a Modernidade é a própria inauguração da idéia liberal, da escolha, da individualidade.
A liberdade de ser quem eu quero ser, fazer minha própria escolha, viver a vida do meu jeito, construir minha própria identidade... Em nosso mundo chamado pós-moderno, vivemos o auge da reivindicação das liberdades. Somos todos livres, aptos a fazer nossas escolhas...
Lacan, psicanalista francês que, na década de 50 reformulou a psicanálise fundada por Freud, refere-se a este discurso de liberdade como um delírio. Portanto, além de livres, segundo Lacan somos também delirantes... E esta idéia lacaniana se fundamenta na noção mais importante da psicanálise, aquela que lhe deu origem e que escandalizou a sociedade vitoriana da época de Freud: a noção do inconsciente. O gênio de Freud desbancou toda essa autonomia, ao revelar-nos divididos entre, por um lado, este que facilmente reconhecemos e assumimos como nós mesmos: o nosso eu, e, por outro lado, esse obscuro e estranho que mora em nós, o inconsciente. Dele nada sabemos.
Esta é a contradição do sujeito humano. Este que se pretende dono de si, livre para fazer suas escolhas, e este que tantas vezes não tem escolha, que se vê tantas vezes refém de si mesmo.
e a Modernidade é a própria inauguração da idéia liberal, da escolha, da individualidade.
A liberdade de ser quem eu quero ser, fazer minha própria escolha, viver a vida do meu jeito, construir minha própria identidade... Em nosso mundo chamado pós-moderno, vivemos o auge da reivindicação das liberdades. Somos todos livres, aptos a fazer nossas escolhas...
Lacan, psicanalista francês que, na década de 50 reformulou a psicanálise fundada por Freud, refere-se a este discurso de liberdade como um delírio. Portanto, além de livres, segundo Lacan somos também delirantes... E esta idéia lacaniana se fundamenta na noção mais importante da psicanálise, aquela que lhe deu origem e que escandalizou a sociedade vitoriana da época de Freud: a noção do inconsciente. O gênio de Freud desbancou toda essa autonomia, ao revelar-nos divididos entre, por um lado, este que facilmente reconhecemos e assumimos como nós mesmos: o nosso eu, e, por outro lado, esse obscuro e estranho que mora em nós, o inconsciente. Dele nada sabemos.
Esta é a contradição do sujeito humano. Este que se pretende dono de si, livre para fazer suas escolhas, e este que tantas vezes não tem escolha, que se vê tantas vezes refém de si mesmo.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
OS TEMAS INSISTENTES
Algo sempre insiste em nosso discurso, em nossos gestos, nossos atos, em nossa história. "A história se repete", ouvimos tantas vezes. Sim,repete-se, à reveleia de nossas vontades, tantas vezes, e também se recria, se renova, se faz diferente. Assim somos nós, feitos de insistências e repetições e da mais pura invenção. Seres notoriamente contraditórios, esses que somos. Esses que se afirmam "os mesmos" embora sejam tantos outros pela vida afora. Tão desejosos de mudança, de traços que nos façam diferença, e tão apegados às conhecidas e familiares facetas de nós mesmos...
Visitei esta semana o museu Iberê Camargo, onde estão expostas obras de Iberê e do uruguaio Torres Garcia. O conjunto da obra de um artista não foge a esta dualidade , onde o novo e o repetido se combinam a constituir identidades. Na obra de Iberê me toca o tema do ciclista, este personagem sombrio, solitário, ora a percorrer caminhos a bordo de sua bicicleta, ora estático, numa pose frontal na tela, a olhar, a bicicleta ao longe, ou ainda estirado ao solo, será que extenuado pelo cansaço, será que desesperançado... São fortes as telas onde Iberê repete o tema do homem e de sua bicicleta. Um homem que pode estar em movimento ou aparentemente estático. Na solidão inerente ao humano, esta em que o homem conversa consigo mesmo...
Visitei esta semana o museu Iberê Camargo, onde estão expostas obras de Iberê e do uruguaio Torres Garcia. O conjunto da obra de um artista não foge a esta dualidade , onde o novo e o repetido se combinam a constituir identidades. Na obra de Iberê me toca o tema do ciclista, este personagem sombrio, solitário, ora a percorrer caminhos a bordo de sua bicicleta, ora estático, numa pose frontal na tela, a olhar, a bicicleta ao longe, ou ainda estirado ao solo, será que extenuado pelo cansaço, será que desesperançado... São fortes as telas onde Iberê repete o tema do homem e de sua bicicleta. Um homem que pode estar em movimento ou aparentemente estático. Na solidão inerente ao humano, esta em que o homem conversa consigo mesmo...
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
O DESAFIO DO ENEM
Os estudantes que estão neste ano se preparando para concorrer a uma vaga no en-
sino superior sentem, nas duas próximas semanas, a proximidade do momento que, para muitos, é decisivo e, para outros, o primeiro dos desafios a cumprir, no caso dos que vão ainda prestar vestibular, como é o caso na UFRGS e em outras universidades do país.
Nossa época é farta em oferecer aconselhamentos, as dicas sobre como viver melhor,
como aprimorar nossas performances, nossos corpos, nossa saúde, enfim, a busca de resolver as inquietações, angústias, medos e ansiedades da vida fazem o sucesso dos chamados livros de auto-ajuda, dos programas televisivos onde famosos dão suas receitas de como proceder para ter sucesso, dos sites onde se pode procurar respostas para quase todas as perguntas. As dicas para quem vai prestar o exame do ENEM e o vestibular certamente estão bem difundidas, seja nos cursinhos, com a orientação dos professores, seja nos sites especializados ou nas matérias jornalísticas.
Posso apostar que a grande maioria deles colocará o foco no tema da ansiedade. São muitas as técnicas que os mais diversos especialistas sugerem, e algumas matérias dirigidas a estudantes serão enfáticas ao propor simplesmente: “o importante é ficar calmo na hora das provas.”
Pois meu recado aos que acompanham o meu blog e aos que são por mim acompanhados no consultório é para que reconheçam a ansiedade como parte deste processo, e da importância que estão atribuindo ao seu projeto. E para que priorizem a clareza do sentido do vestibular ou do ingresso na universidade, já que fazer as provas com esta clareza é um dos requisitos para ter sucesso. Ou seja, tão importante quanto ter estudado a matéria que cai nas provas, é ter estudado a si mesmo, e estar de posse de algumas convicções sobre o que se pretende ser e fazer nessa vida.
sino superior sentem, nas duas próximas semanas, a proximidade do momento que, para muitos, é decisivo e, para outros, o primeiro dos desafios a cumprir, no caso dos que vão ainda prestar vestibular, como é o caso na UFRGS e em outras universidades do país.
Nossa época é farta em oferecer aconselhamentos, as dicas sobre como viver melhor,
como aprimorar nossas performances, nossos corpos, nossa saúde, enfim, a busca de resolver as inquietações, angústias, medos e ansiedades da vida fazem o sucesso dos chamados livros de auto-ajuda, dos programas televisivos onde famosos dão suas receitas de como proceder para ter sucesso, dos sites onde se pode procurar respostas para quase todas as perguntas. As dicas para quem vai prestar o exame do ENEM e o vestibular certamente estão bem difundidas, seja nos cursinhos, com a orientação dos professores, seja nos sites especializados ou nas matérias jornalísticas.
Posso apostar que a grande maioria deles colocará o foco no tema da ansiedade. São muitas as técnicas que os mais diversos especialistas sugerem, e algumas matérias dirigidas a estudantes serão enfáticas ao propor simplesmente: “o importante é ficar calmo na hora das provas.”
Pois meu recado aos que acompanham o meu blog e aos que são por mim acompanhados no consultório é para que reconheçam a ansiedade como parte deste processo, e da importância que estão atribuindo ao seu projeto. E para que priorizem a clareza do sentido do vestibular ou do ingresso na universidade, já que fazer as provas com esta clareza é um dos requisitos para ter sucesso. Ou seja, tão importante quanto ter estudado a matéria que cai nas provas, é ter estudado a si mesmo, e estar de posse de algumas convicções sobre o que se pretende ser e fazer nessa vida.
terça-feira, 20 de setembro de 2011
sábado, 17 de setembro de 2011
MUDANÇA DE CURSO
Há uma preocupação que cresce nos meios universitários: é grande o número de estudantes que mudam de curso, ou seja, supostamente fizeram uma opção equivocada
e buscam retificá-la. Certamente que esta situação onera os cofres da universidade pública e nos põe a questionar sobre as causas deste problema.
Acho que podemos pensar em muitos aspectos que contribuem para que isto aconteça.
Podemos pensar, e este é o argumento mais utilizado, na pouca idade dos jovens que ingressam na universidade, que muitas vezes tem 16, 17 anos, e, segundo os adeptos deste argumento, não teriam maturidade para fazer uma escolha profissional.
Penso que a questão não se resume à faixa etária dos jovens, mas se estende à própria
família e sociedade que não conseguiram embasá-los e muni-los de recursos para escolher bem, para definir seus projetos de vida. A própria universidade parece não estar preparada para lidar com esta questão, já que sua estrutura não dispõe de mecanismos que pudessem alterar este quadro, como, por exemplo, a formação interdisciplinar nos primeiros semestres, favorecendo e dando condições aos jovens de tomarem suas decisões num processo mais gradual e coerente.
A sociedade contemporânea rege-se pelo pragmatismo e pelos valores de mercado, o que se reflete numa tendência mais objetiva, menos utópica por parte da juventude. O jovem tende a objetivar a escolha da profissão, que acaba por se realizar com pouca base subjetiva. A busca da informação tem primazia sobre a do autoconhecimento. A busca do sucesso e da ascensão econômica prevalecem sobre a da felicidade.
Antigamente os pais “metiam-se” mais nas escolhas dos filhos. A tendência liberal da modernidade vem se acentuando e gera uma sociedade desbussolada, onde faltam as referências. O discurso dos pais é : “ Faça o que você quiser, o importante é que você seja feliz”, o que na verdade só contribui para jogar o jovem no desamparo, na solidão e, mais, na obrigatoriedade de ser feliz, gerando inevitáveis e violentas pressões naquele que precisa traçar o rumo para sua vida, e que, para cumprir tão importante tarefa, certamente precisaria sentir-se acompanhado, orientado.
Outra questão é a crescente e incessante multiplicação das opções disponíveis no mercado. Elas proliferam num ritmo estonteante, acarretando muitas vezes desorientação e confusão.
Tendemos também a julgar a mudança de opção como “erro”, como algo que não deveria acontecer. Quantas vezes, independente da idade, da maturidade que se tenha, precisamos ou queremos mudar de curso na vida ?
e buscam retificá-la. Certamente que esta situação onera os cofres da universidade pública e nos põe a questionar sobre as causas deste problema.
Acho que podemos pensar em muitos aspectos que contribuem para que isto aconteça.
Podemos pensar, e este é o argumento mais utilizado, na pouca idade dos jovens que ingressam na universidade, que muitas vezes tem 16, 17 anos, e, segundo os adeptos deste argumento, não teriam maturidade para fazer uma escolha profissional.
Penso que a questão não se resume à faixa etária dos jovens, mas se estende à própria
família e sociedade que não conseguiram embasá-los e muni-los de recursos para escolher bem, para definir seus projetos de vida. A própria universidade parece não estar preparada para lidar com esta questão, já que sua estrutura não dispõe de mecanismos que pudessem alterar este quadro, como, por exemplo, a formação interdisciplinar nos primeiros semestres, favorecendo e dando condições aos jovens de tomarem suas decisões num processo mais gradual e coerente.
A sociedade contemporânea rege-se pelo pragmatismo e pelos valores de mercado, o que se reflete numa tendência mais objetiva, menos utópica por parte da juventude. O jovem tende a objetivar a escolha da profissão, que acaba por se realizar com pouca base subjetiva. A busca da informação tem primazia sobre a do autoconhecimento. A busca do sucesso e da ascensão econômica prevalecem sobre a da felicidade.
Antigamente os pais “metiam-se” mais nas escolhas dos filhos. A tendência liberal da modernidade vem se acentuando e gera uma sociedade desbussolada, onde faltam as referências. O discurso dos pais é : “ Faça o que você quiser, o importante é que você seja feliz”, o que na verdade só contribui para jogar o jovem no desamparo, na solidão e, mais, na obrigatoriedade de ser feliz, gerando inevitáveis e violentas pressões naquele que precisa traçar o rumo para sua vida, e que, para cumprir tão importante tarefa, certamente precisaria sentir-se acompanhado, orientado.
Outra questão é a crescente e incessante multiplicação das opções disponíveis no mercado. Elas proliferam num ritmo estonteante, acarretando muitas vezes desorientação e confusão.
Tendemos também a julgar a mudança de opção como “erro”, como algo que não deveria acontecer. Quantas vezes, independente da idade, da maturidade que se tenha, precisamos ou queremos mudar de curso na vida ?
quarta-feira, 7 de setembro de 2011
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