sexta-feira, 28 de janeiro de 2011



A CONDIÇÃO HUMANA, DE MAGRITTE
Sobre a tela, o pintor filosofou: " Eu coloquei, frente a uma janela, vista dentro de um quarto, uma pintura retratando exatamente a parte da paisagem que estaria escondida pela tela... Que é como vemos o mundo:nós o vemos como algo fora de nós mesmos, mesmo sabendo que é somente uma representação mental dele que experimentamos dentro de nós mesmos..."

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

A PRODUÇÃO DA DIFERENÇA

A primeira postagem do ano. Uma certa demora... O tempo que passa quando a gente sente que o tempo passa... O blog fez um ano. E, como eu já disse, há, neste percurso, uma busca de identidade. Este é o blog de uma psicóloga clínica. E o que se faz na clínica? Produz-se sentido na clínica. Trabalha-se com história. Bem, pode-se ver a história sob este viés da determinação, do que está determinado, daquilo que tende a se repetir. E, ao mesmo tempo, o que não quer dizer num mesmo tempo, a história é diferença, é a invenção, é o rumo inesperado, é o surpreendente, a criação do novo. Pois o que faço na clínica, como psicoterapeuta, é percorrer esta trajetória histórica com aqueles que me procuram para que eu seja algo como uma intérprete. E o que buscamos juntos é justamente a diferença. Pois quando alguém busca uma psicoterapia, certamente quer se desenredar de suas determinações, de suas repetições, daquilo que parece conhecer tão bem sobre si mesmo, e que, inevitavelmente é aquilo que não conhece de si. Paradoxalmente, e justamente o que incomoda e intriga, é que possamos ser tão velhos conhecidos de nós mesmos e, ao mesmo tempo, tão estranhos de nós mesmos.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

AOS QUE PASSARAM POR AQUI

Milhares de caminhantes andaram por aqui. Guiados pela curiosidade, pela busca de algo ou mesmo em busca de si mesmos, como todos nós, aliás, estamos vida afora.
Quem são eles? Ou quem são vocês? Percorri habitualmente o feedjid em busca de vocês também. De onde vinham, talvez fique melhor de onde teriam vindo, já que a bandeirinha ou nome da localidade nem sempre é fidedigna em relação ao internauta.
- Parece que muitos, ou poucos, não sei, decidem-se por visitar o blog com outra bandeira, ou o computador decide isso por eles, também não sei. Minha observação
fez amizade secreta especialmente com alguns freqüentadores mais habituais. E se alegrou com cada nova visita. Incrível essa possibilidade de estar em contato, tecer uma relação não muito despretenciosa sem saber com quem. Escrever, atirar ou endereçar palavras não ao vento, que as dissiparia, mas a leitores desse mundo virtual pleno de possibilidades e de mistérios.
Iniciei o blog nos primeiros dias de 2010 pensando, na época, em ser bem objetiva. Ouvi alguns conselhos de gente que já tinha alguma vivência de blogs. Ouvi também a turma dos conselhos orientados para a publicidade. Aliás, continuo a ouvi-los, eles são brilhantes. A primeira idéia era a de um blog dirigido para orientação vocacional, para os jovens e futuros profissionais. Já que trabalho com isso. Mas logo foram se apresentando, meio sem aviso, essas outras tendências de mim: a que trabalha com psicoterapia de jovens e adultos, a que escreve, a que gosta de Psicanálise, a que gosta de Psicologia Social, estão todas aí. E, posso garantir, todas sou eu. Que tenho estado com vocês. Obrigada por terem, cada um ao seu modo, estado comigo.

domingo, 12 de dezembro de 2010

O TEMPO PASSA

Todos nós repetimos essa frase, invariavelmente. Assim, meio que normalmente, esteriotipadamente, nostalgicamente. Nostálgica mente. A buscar em nossos baús emoções perdidas, cenas há muito vividas, reprises de nós mesmos , capítulos da nossa história. Dessa história que vamos construindo e que vai nos construindo através do tempo... O destino humano se desenha, se apaga, se redesenha, se colore com as tintas do tempo. No nosso caso, pós-modernos da era do softwear, o tempo é o próprio instante, fugaz, fugidio. Frenéticas vibrações sacodem as horas do nosso sempre insuficiente dia. O prazo de vencimento é cada vez mais curto. Estamos acostumados a descartar, a começar de novo, a supervalorizar o momento, e consequentemente tendemos a perder a perspectiva histórica. Bem, se acreditamos que o homem se constrói na história que vive, ficamos a pensar para onde caminha o habitante deste mundo caracterizado pela velocidade e pela instantaneidade.
O final do ano se aproxima e, como sempre, mesmo que tentemos negar, nos faz uma provocação : qual o sentido que temos dado à nossa vida? Para onde estamos indo? Para onde queremos ir? Estamos felizes? Como vamos assumir nossos desejos? Balanço me parece uma palavra muito contábil. Mas talvez por isso mesmo o fim de ano seja tão forte, tão pleno de significado. O significado do nosso viver.
Nosso blog, A ESCOLHA DO CAMINHO, iniciou sua trajetória no primeiro dia do ano. Tem sido sempre surpreendente e algo mágica, posso dizer, essa relação diária com cada seguidor que o descobre e me ajuda a inventá-lo. Tem sido uma caminhada permanentemente recriada. A sensação que me dá muitas vezes é a de que não sei que blog é este. Nunca soube. Ele sempre me surpreende. Como todos os caminhos e todas as escolhas. Que nunca são aquilo que esperávamos.

domingo, 28 de novembro de 2010

SOBRE ESCOLHAS E CAMINHOS

As escolhas possíveis são infinitas. Surgem e ressurgem, somam-se às já existentes, ou as fazem caducar, tornando-as obsoletas. Mais, mais e mais... A confundir, a angustiar, a fazer pensar, a não saber o que fazer... ou a nos servir, calhar-nos mais ou menos adequadamente, mais ou menos felizmente. A instigar nosso desejo. A elas temos que dizer sim, não, ou talvez, quando o prazo permite... Quando simplesmente achamos ter feito uma boa escolha, alguma outra possibilidade surge a nos provocar: não teria sido melhor? Teríamos feito a coisa certa?
Enfim, o mundo contemporâneo é este caldeirão de infinitas possibilidades, que se apresentam com a velocidade estonteante que dita o ritmo de nossos dias. Os automóveis, as tecnologias, as modas, as profissões, especializações, as aplicações, publicações, os roteiros de férias, os shopping centers, restaurantes, os lanches da propaganda, a roupa e o cabelo, as cores do ano, os sapatos da última coleção... Queremos muito, queremos mais, queremos exercer nosso direito de escolha.
A grande contradição reside, porém, no modo como somos “escolhidos” pelo sistema capitalista integrado, pela mídia, como somos cooptados full-time enquanto nos sentimos livres. Sim, enquanto nos sentimos livres, como bons modernos, temos o olhar capturado em hipnose pelas telas brilhantes a nos empanturrar de imagens e discursos. Rápido, já que amanhã é outro dia... A grande contradição é esta. Somos “escolhidos pela mega fábrica de subjetividade que nos ronda, nos invade, nos submete. Enquanto nos sentimos livres...
Contraditórias também são, por um lado, as pressões nosentido de igualar, homogeneizar, consumir, ” clique aqui e compre já”,” ajuste-se ao ideal capitalista de hoje”, e, bem por outro lado, a tendência individualizante, singularizante. Por um lado, sejamos todos iguais, necessariamente, como quer o mercado, a mídia, o capitalismo globalizado. Ao mesmo tempo, as identidades vêem-se cada vez mais em busca de suas diferenças, esforço tão mais árduo quanto mais submetidas estiverem à massificação.
Deste modo, nossas escolhas são permeadas por inevitáveis angústias e temores. Ansiamos por resgatar nossas certezas, e, muito pelo contrário, não localizamos o norte da bússola a nos orientar. Ainda mais do que sempre, precisamos contar com nossos recursos próprios, nossa coragem, nossa capacidade criativa e, é preciso salientar, nosso senso ético e de responsabilidade a guiar nossos caminhos, nossas escolhas.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

MUITO ALÉM DO ENEM

No próximo final de semana você, que pretende conquistar uma vaga em alguma universidade brasileira, será posto à prova.E certamente está sob efeito daquela ansiedade que acompanha momentos decisivos da nossa vida. Aliás, é bom falar "nossa vida", porque parece nos assaltar, nessas ocasiões, uma sensação de que tudo se resume àquela hora, àquela circunstância, aquele fato. É sempre importante lembrar que estamos em movimento. O movimento da vida, do universo, e o nosso próprio movimento. Esse momento não se estanca aqui, e também não brotou do nada. Portanto,se você vai prestar Enem, é porque construiu as condições necessárias para chegar aqui, e se chegou aqui, você está vivendo uma fase crucial da sua história. Você está traçando o seu projeto de vida.Decidindo quem você é, quem você será, que papel será o seu nesse mundo, o que você vai fazer da sua vida.E a vida é tão rara...
Como diz Lenine.
Bem, é por isso que algo muito além do Enem está em jogo. Muito além do que você sabe, do que não sabe, dos acertos e dos erros, das notas e das classificações. Muito além de tudo que possa acontecer nos dias de prova, está a vida que você está construindo.

domingo, 24 de outubro de 2010

sábado, 23 de outubro de 2010

O NORMAL TEM LUGAR EM NOSSO TEMPO?

Recentemente, durante um encontro com pais de alunos de uma escola onde fui convidada a falar sobre adolescência, um dos presentes lançou esta pergunta: como saber o que é normal e o que não é? É evidente que o pai em questão referia-se ao adolescente saudável e o adolescente que mereceria uma preocupação a mais ou mesmo uma indicação terapêutica. Pensando assim, em termos de saúde emocional, podemos pensar que pode ser preocupante o adolescente que não se rebela, que não questiona, que não se diferencia, já que a consolidação da identidade passa necessariamente por essas tensões.
Agora, sobre a palavra normal, aquilo que está dentro da norma, é de se pensar como fica a normalidade numa sociedade em que cada vez mais nos distanciamos da norma, da tradição, da lei. A Modernidade Líquida, segundo o sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ou a pós- modernidade, esse tempo que é o nosso, esse mundo desestabilizado, mundo sem certezas, sem modelos a seguir, mundo das inesgotáveis possibilidades em oferta, parece não ser exatamente o espaço propício para o “normal”. Se na Modernidade a experiência da desestabilização estava associada à loucura , à doença e ao fracasso, no mundo de hoje a instabilidade, a frequente e inevitável necessidade de reconfigurações a que são submetidas as subjetividades, e a consequente fragilização que acomete os sujeitos agora se generaliza, acercando-se de uma normalidade. As subjetividades, no contemporâneo, são constantemente bombardeadas pelos mass mídia, as propagandas infindáveis que nos invadem a qualquer momento em casa, nas ruas, na tela do computador, as mensagens do capitalismo mundial integrado a nos induzir a comprar, os produtos que nos seduzem e que tão rapidamente esgotam suas validades e precisam ser substituídos numa corrida incansável contra a defasagem, numa luta incessante para manter a sensação de fazer parte, de estar atualizado, não ficar à margem de toda essa engrenagem. Difícil dizer o que é normal num mundo tão frenético que por si já nos remete a alguma insanidade.

domingo, 5 de setembro de 2010

RECADO AOS VESTIBULANDOS

Abertas as inscrições para o vestibular da UFRGS, eis que os futuros vestibulandos vivem um primeiro momento de aproximação, pode-se dizer, da realidade para a qual se preparam. Realidade que extrapola em muito a realização de provas de conhecimento e da busca de aprovação para ingresso na universidade. É muito mais do que isso. É o real de uma vida adulta que se aproxima. Tarefas complexas precisam ser cumpridas: a escolha de um papel a desempenhar, um projeto de vida a desenvolver na sociedade. Certamente, é bem mais do que ingressar na universidade.Ou mesmo do que fazer a escolha do curso. Justamente, o que "está em curso" é a futura vida adulta em seus primeiros passos, marcados por hesitações, dúvidas, às vezes até mesmo bloqueios, ansiedade, angústia. Já que o caminho a percorrer é inevitavelmente permeado por riscos e incertezas. Afinal, como é isto, ser adulto ?
Pois meu recado aos que estão agora se inscrevendo para o vestibular é para que não esqueçam desse algo maior que está em jogo na inscrição, ou mesmo na escolha do curso. Esse algo maior que é o próprio sentido da vida.

sábado, 28 de agosto de 2010

PAIS E FILHOS - O SIGNIFICADO DA VIDA

A relação de pais e filhos é fundadora, e em seu curso se firmam leis, valores, experiências e amores. Que vão dando sentido à vida. E constituindo o sujeito, sua história, sua identidade. Relação fundamental, encadeada na sucessão de gerações,portanto, antecedida por outras que lhe foram modelos, e a servirem de referência a outras ainda, que lhe serão posteriores.O curso da vida, da história humana, que se constrói na vivência dos laços sociais, na relação com o outro. O indivíduo, portanto, traz em si, em seu íntimo, a marca inevitável do social.
A relação de pais com filhos é determinante já desde as primeiras expectativas, os primeiros desejos, projetos acerca do filho ainda inexistente. O que se quer para ele, o que se espera dele,que nome se lhe dá, de que forma, enfim esse filho vai se inscrevendo no desejo dos pais. Uma relação que é permeada, em seu curso, pelo caráter paradoxal, já que, para sobreviver, a criatura humana necessita dos cuidados do outro, e, ao mesmo tempo, para se constituir como sujeito, precisa se independizar desse outro.Esta contradição se faz presente em muitos momentos do desenvolvimento, e já desde o nascimento, quando a vinda ao mundo acontece com a separação. Se o bebê humano foi um só com o corpo materno, nascer significa começar um processo de individuação. E vão se sucedendo, ao longo da vida, tais momentos. Que são sempre, de forma inevitável, experiências de aprendizado e autoconhecimento marcadas pelas dores da perda e pelas alegrias do crescimento. É a vida...O desmame, os primeiros passos, a primeira ida à escola,pais e filhos vão se construindo e reconstruindo nesse movimento pleno de encontros, desencontros, conflitos, risos, lágrimas, apegos, amores e descobertas. Sim, porque não se nasce sabendo como ser pai, como ser mãe, como ser filho. A gente vai aprendendo no próprio curso dessa história, que é uma hitória, por um lado, como todas as outras, por outro, muito singular, muito própria.

domingo, 11 de julho de 2010

REPETIR E MUDAR

Uma cena da minha infância que sempre me vem à memória é a da reunião da grande família em redor da mesa de refeições. Ocasião em que, em torno do alimento, acontecia habitualmente a revelação das diferenças dos membros do grupo em seus gostos, desgostos, preferências, recusas e até mesmo repulsas. Alguém, por exemplo, apesar de nunca ter comido tomate, alegava dele não gostar, outro cuspia a batata que tentavam obrigar-lhe a comer, e havia também o que requeria toda a atenção materna por ser aquele que "não comia nada". E se todos comiam manteiga, alguém certamente só aceitava margarina. De minha parte, lembro de certa intolerância ao leite, que, em nome da boa educação alimentar, minha mãe exigia que se tomasse. Lembro deminha especial preferência pelo café preto. Símbolo, talvez, do que eu pudesse considerar próprio de gente grande, o café com pão era minha refeição preferida. Costumava saborear com prazer a repetição da bebida bem quente e açucarada, com mais fatias de paão com manteiga. Pois um dia, ao ver-me pedindo mais, alguém disse algo que manchou para sempre a pureza daquele momento de satisfação: " O segundo café nunca é igual ao primeiro." Inesquecível este meu encontro com a verdade da incompletude do prazer, com a inevitabilidade da falta, da perda e da impossibilidade. Enfim,o que foi nunca mais será.
Eis aí uma questão essencial da vida humana, o encontro marcado com isto que já não é mais, aquele que já fomos, com o que se passou e, no entanto, tantas vezes buscamos alcançar.
O ser humano é irremediavelmente impelido a repetir. Repete porque busca alcançar este algo de conhecido e de desconhecido que resta sucumbido em seu íntimo. Freud, na genialidade de sua produção, nos fala do conhecido e do estranho como faces duplas daquilo que somos. Conhecido porque é aquilo que somos novamente, mais uma vez e repetidadmente. Desconhecido e estranho porque, neste ato de repetição, necessariamente nos topamos com algo diferente,novo.
Tentamos repetir o mesmo desenho e linhas inusitadas teimam em surgir.E o desenho fica outro. Na tentativa de copiarmos a receita geralmente acabamos descobrindo que algum detalhe diferente nos faz experimentar um novo sabor. E assim também em nossas escolhas amorosas, profissionais, escolhas de vida, há algo ali que insiste em repetir-se. E sempre algo que, felizmente, teima em nos surpreender.
Seguem abaixo duas telas da artista plástica Adriana Rocha, a nos mostrar, como a arte sempre o faz, que o céu nem sempre é azul, que há , enfim, infinitos jeitos de representar alguma coisa, de dizê-la, de olhá-la, de vivê-la.

PINTURAS DA SÉRIE "CÉUS PORTÁTEIS", DE ADRIANA ROCHA

terça-feira, 29 de junho de 2010

A PREPARAÇÃO PARA O VESTIBULAR

Já próximos do final do semestre, passados os meses de ambientação aos cursinhos
e à própria condição de pré-vestibulandos, abertas as inscrições para o Enem, parece
que o momento é de tomada de consciência, momento adequado para um primeiro recado a todos que estão se preparando para prestar vestibular.
É comum que os pré-vestibulandos sejam acometidos de crises de " não sei nada",
"parece que esqueci tudo", pensamentos que são recorrentes e que se caracterizam pela sua radicalidade.Basta que prestemos atenção às palavras:"tudo" e nada", os extremos radicais onde muitas vezes localizamos nossas ações e nossos sentimentos, que, na verdade, são sempre a expressão de nossas possibilidades reais, e, portanto, de nossos limites. Nunca fazemos nada. E nunca fazemos tudo. Mas sempre e simplesmente o que podemos. Ótimo quando podemos ficar felizes com o "tudo" que nos é possível.
Outra coisa bem importante é assumir um jeito próprio de estudar. A gente só aprende de verdade quando se envolve, quando faz daquele momento do estudo um momento proveitoso, que tem sentido. Pensar sobre as coisas, estabelecer relações, obter uma compreensão própria do que estamos estudando. Se não, ficamos robotizados frente às aulas, aos livros e cadernos.
Muitos estudantes sentem culpa ao se envolverem com as experiências habituais de suas vidas porque estariam "perdendo tempo". Sentem-se culpados se vão se divertir, se vão viajar ou namorar. Escuto muito que o namoro "atrapalha" neste período de preparação para o vestibular.
A palavra "vestibular" deriva de "vestíbulo", aquela peça introdutória nos prédios, que dá acesso ao seu interior, e que não fica nem dentro nem fora. Pois é bem assim que os vestibulandos parecem sentir-se. Sem um lugar próprio, prestes a ter acesso a ele, mas cheios de angústia por nada saberem deste futuro. Este momento, portanto, é vivido como um intervalo. Embora, é claro, não passe de uma fase da vida. Que, simplesmente, tem que ser vivida. Em vez de evitar tudo que não se refira ao estudo, mais importante é aprender a dosar-se, buscar equilíbrio e organização na rotina.
Outra questão, e talvez "a questão", é um pré-requisito para vencer essa fase. Trata-se do sentido que damos para nossas experiências. Sim, é preciso se perguntar sobre que sentido tem o vestibular, para quê estamos estudando, qual é nosso projeto. Porque é por isso que se faz vestibular. Para dar curso ao nosso projeto de vida, para assumir nosso papel no mundo. O papel que escolhemos desempenhar.

sábado, 12 de junho de 2010

domingo, 6 de junho de 2010

CORPO E ALMA

Belos corpos ilustram abundantemente as propagandas da indústria da nutrição e da beleza. Revistas e telas de tv e computador impõem suas mensagens, adentram as subjetividades, ditam comportamentos, incitam desejos. Fabricam sujetividade em massa.
A megaindústria associada da beleza, da nutrição e da saúde coloca no mercado constantemente uma infinidade de produtos que prometem reparar, aperfeiçoar, renovar o corpo, livrá-lo das marcas do tempo e da vida. Também a indústria farmacológica promete alívio e cura a toda sorte de sintomas decorrentes do modo de vida acelerado e sujeito a tantas pressões que caracteriza a sociedade contemporânea.
Se em outros tempos a sede do ser, da própria identidade, era a alma, e sacrifícios de toda sorte eram utilizados com o nobre fim de purificá-la e salvá-la, aperfeiçoá-la, hoje, em nosso tempo, o corpo passa a se constituir no lugar de sede identitária. Contraposta à eternidade da alma está a finitude do corpo, com seu prazo de validade. E,se outrora,a salvação da alma era a essência da finalidade da vida humana, hoje vive-se a urgência de salvar o corpo, recuperá-lo todos os dias, buscar receitas de bem viver e de resgate da saúde, da beleza e do vigor do corpo.
Se, também em outros tempos, o homem, seu comportamento e suas ações
se definiam por seu lugar na sociedade, hoje, ao contrário,verifica-se a alta dos sentimentos hedonistas, do individualismo, da perda de sentido das causas sociais,uma sociedade onde cada um cuida de si, onde impera o "eu primeiro".
Se, ainda, em outros tempos, a política era o lugar do exercício da cidadania, para onde convergiam os interesses de todos, hoje ela é vista como o espaço da mentira e do roubo, enquanto a publicidade passou a ocupar esse lugar, e é assim que vêem-se atualmente os anúncios publicitários comprometidos com a cidadania, a ecologia e com os interesses gerais e comuns da sociedade. E as propagandas prometem cuidados e orientações para a vida de todos nós.
Cuidar do corpo, portanto, significa hoje o melhor meio de cuidar de si mesmo, de se afirmar, de sentir-se bem e feliz. Exigências sem fim são feitas ao corpo, coagindo-o a apresentar-se cada vez mais e obrigatóriamente saudável,jovem e capaz de produzir prazer.Cabe a cada corpo estar permanentemente preparado para ser visto, exposto, filmado, fotografado.
Se o homem contemporâneo parece tão alienado de sua ligação com a natureza e com os outros homens, se parece tão concentrado em suas próprias causas, seu próprio corpo, torna-se acima de tudo importante que busquemos o resgate desse mundo sensível, ao invés das imagens, o resgate da aproximação entre os homens, do valor da coletividade. E talvez possamos nos reconciliar com nossa essência mais humana. Com nossa alma humana.

terça-feira, 18 de maio de 2010

AS CRISES

Há, no decorrer do desenvolvimento humano, momentos de crise. Estamos habituados a associar crise com algo que não deveria acontecer, algo que se estraga, que se passa de um jeito errado ou que deveríamos evitar.
Proponho, no entanto, olharmos a crise como um momento importante, necessário ao desenvolvimento.
A crise é, sem dúvida, um momento de desacomodação. Um fora de lugar. Algo certamente veio abaixo. Digo que é importante porque muitas vezes é preciso des-acomodar, colocar abaixo para fazer um novo arranjo, ver surgir uma nova ordem.
Assim são as crises. Há muitas no curso da vida. Basta pensarmos no bebê que um dia foi um só com o corpo materno, um dia sentiu-se enlaçado nesta fusão indescitívelmente única e paradisíaca, da qual nos resta para sempre uma nostalgia. Um dia, no entanto, numa primeira crise, o bebê nasce. E chega o dia em que é desmamado, e chega o dia em que ele percebe, no espelho, a imagem de seu próprio corpo, inteiro, ao lado do adulto que lhe aponta e lhe diz: "olha lá, é você!" Momento crítico de tomada de consciência primeira de seu corpo, de sua individualidade. Vem também o dia em que esse bebê arrisca soltar-se das mãos que o amparam e inicia uma caminhada própria. O dia de sua entrada na escola, a adolescência, esta fase em que se constrói um indivíduo com sua visão própria do mundo, todos esses são momentos de crise. Algo se acaba. Algo está por ser criado. A crise é um inevitávelperder-se para voltar a encontrar-se em um novo lugar. E como gostamos de pensar que temos nosso lugar certo e garantido. Pois as crises da vida nos ensinam que viver é uma constante busca de definição desses lugares. As crises abrem sempre espaço para a criação, a renovação, a invenção de nós mesmos. De novo e sempre.

domingo, 9 de maio de 2010

VIVER E MUDAR

Mudanças...Migrar de um lugar conhecido, onde se fez história,para ocupar um outro, começar de novo, redescobrir-se.
Na primeira semana de maio mudei para novo endereço. Perdi minha conexão com a internet, e, consequentemente com o blog, que pareceu abandonado. Devo dizer que não, apenas precisei deste tempo para mergulhar nesse processo que invariavelmente nos desloca de nosso mundo previsível. A bagunça que necessariamente se instala é prenunciadora de uma nova ordem. É uma verdadeira crise que se passa a viver. Perde-se a segura noção de onde estão todas as coisas, dos lugares que lhes atribuimos, dos hábitos que preenchem organizadamente nossos dias.
É trabalhosa, desgastante, todos dirão, a mudança. Transtornante, desorientadora, até caótica pode ser.
Mudar de residência, mudar de cidade, mudar de escola, de ano letivo, mudar de curso, de emprego, de namorada(o), de professor, de carro, de corte de cabelo, mudar de idade, mudar de vida...
As mudanças nos exigem porque necessariamente perdemos aqueles que não seremos mais, e estranhamos aqueles que passamos a ser. É nesse movimento tão difícil e trabalhoso quanto rico e feliz, que transcorre a própria vida.
Quanto a mim, hoje feliz com os resultados da minha mudança, retomando aqui a escrita dos textos para o blog, confirmo para mim mesma que é fundamental este movimento de renovação. E que é preciso ter coragem de mudar. E viver...